30 março 2020

DOS DIAS DE QUARENTENA



DOS DIAS DE QUARENTENA

No meio do furdunço causado pelo corona virus no mundo todo, com todas as precauções e recomendações devidas à velocidade com que se espalha, entramos coletivamente em quarentena. Nós os avós ( do grupo de maior risco), dois casais de filhos e 3 netos, juntos, numa casa que foi do sogro em Saquarema,  cidade do litoral do rio de Janeiro.
Enquanto eu ainda me sinto incomodada e um pouco culpada de não estar FAZENDO nada relacionado com a minha profissão para ajudar... a casa pega fogo. Falo para mim mesma que o meu NÃO FAZER tem valor e entro na força tarefa de limpeza e alimentação das 9 pessoas em semi reclusão (que a casa tem um quintal  e uma bela varanda onde as bicicletas e patinetes voam, na rua não passa vivalma a maior parte dos dias e são poucos os vizinhos por perto). Até dá para ir ver o mar (a praia está fechada pela prefeita) rapidinho e voltar. Como uma casa com 6 adultos e 3 crianças não tem uma rotina, fazer exercícios físicos é em parte varrer casa e limpar quintal, lavar a roupa no tanque e correr atrás das crianças.
É um tempo de descobertas, descobertas de vídeos de meditação, de tempo de rezar (enquanto se corta legume), dos códigos Grabovoi, de amigos desaparecidos religados via zapzap, e da possibilidade de vivermos com precariedade de internet! Tudo nos mínimos momentos das folgas no revezamento, claro. E uma descoberta que me surpreendeu foi de estar gostando de lavar roupa no tanque... colocar os panos de prato para quarar, torcer usando o cano da torneira, ver os panos balançarem no varal.
Também os netos fazem inúmeras descobertas. Estes dois últimos dias foram as descobertas um pouco nojentinhas que vêm me mostrar e eu fotografo.... pererecas e besouros vivos, formigas e maria farinhas mortas, e muitas minhocas que acham enquanto preparam um lugar para a horta no quintal entre um e outro “treinamento físico” proposto pelo pai de dois deles... circuitos com tocos e varas no quintal...
Passa o tempo e as notícias confirmam que estar isolado pode estar sendo a grande diferença... sair de cena (muito ajuda quem não atrapalha) talvez seja o meu desafio de aprendizagem nesta pandemia, mesmo querendo fazer mais...  vendo os colegas não aposentados no “campo de batalha” e eu parecendo desertora.... mas logo paro e vejo que no meu tempo ativo não aconteceu nada desta dimensão... então não era para ser e me recolho à minha forma inversa de ajuda no não fazer com amor.

                                                                                          Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

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