31 março 2020

TRABALHO DE PARTO


Maria Amélia Mano

Quatro almas cansadas na madrugada.
Relampeja.
Último horário.
Motorista com RayBan falso comprado no camelô entra no ônibus assobiando Perfídia.
Estela grávida entra em seguida com bolsa Victor Hugo verdadeira dada pela patroa.
Dona de cabelo pintado acaju entra com vela de citronela pra espantar mosquito da dengue.
Homem saído do manicômio entra com Bíblia e sapato antiderrapante.
Gato vesgo se diz médium e mia no poste da parada como se avisasse algo.
Ônibus arranca e começa viagem sem volta.
Estela começa a sentir dor intensa. 
Desenho estranho de linha escura no céu. 
Motorista para no sinal.
Cão no semáforo com cara de quem vende incenso ou arte de macramê suplica avisando. 
Era o momento, o exato momento de uma rotação da terra mais lenta.
Estela sente água entre as pernas. 
Estrela cadente ilumina a faixa escura no céu e Estela faz pedido.
Naquele momento, todos já sabem o que os animais já sabiam.
Motorista fura sinal.
Chove.
Catraca trava, janelas se abrem, soam sinais de parada, buzina, freio, luz apaga, pane
Cheiro de citronela e sangue. 
Mundo se fez outro, diferente, para o sonho de Estela acontecer.   
Motorista passa a assobiar Aleluia, Aleluia.
Homem do manicômio diz que é Jesus voltando.
Na retina, o coração e o ventre, perfurando o olhar e o olhar perfurando as coisas.
Então se acende a luz da lua.
Nasce Maria Aparecida da Silva Souza no corredor do ônibus enguiçado no cruzamento. 
Cinco almas encantadas na madrugada.


Um comentário:

  1. Quando o não planejado acontece como um raio sem trovão! belíssimo relato.

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