Maria Amélia Mano
O
pássaro negro e mágico solta uma pluma que rodopia até cair próxima a menina de
bigodes de fanta, ela se distrai e, por segundos, deixa de espiar as mensagens
alheias do WhatsApp de quem senta ao lado no ônibus, um capoeirista com uma lua
cheia em céu esfumaçado tatuada no peito, menina enxerga um coração enviado na
mensagem, ele ama uma poeta que se comove nos invernos, gosta de perfume de
verbena e ventos, vê beleza na morte e na minguante, engole medos e soluços
quando lembra da dor e do churrasquinho de gato na entrada do hospital,
enfermeira com batom passando da boca, cansaço, não sabe nem andar de bicicleta
e quando não está de plantão, acompanha o ir e vir da cadeira de balanço da mãe
que só pede pra coçar as costas e já não se reconhece no espelho e esquece um
tanto de si, todos os dias, mas nunca da foto do cais em sépia, comprada em feira,
calçada, de fotógrafo errante que, com o dinheiro das ruas, saiu pra comprar
roupa pra entrevista de emprego, duas folhas de currículo só, quer casa limpa
com quintal, cheirinho de amaciante na fronha, diferente da pensão onde divide
quarto com pedreiro, homem concreto que não ri, só pensa em quebrar paredes,
fazer alicerce, laje, rejunte, reboco e nem vê as cascas das várias pinturas na
parede do quarto, memórias de outros viventes, como a moça ao lado que sumiu,
enlouqueceu, dizem, do interior, dizem, trabalhava em pet shop e gostava de
ouvir Caetano e o mar em uma concha, se apaixonou pelo homem do tempo no
jornal, achou que falava pra ela e sorria quando fazia sol, foi quando veio a
camisa de força e seus pés balançavam, mesmo presa, mesmo sedada, mania de
infância, dizia a mãe, que se sente culpada como todas as mães, tem insônia,
tricota blusão cinza e rosa, faz barra de saia, colhe goiabas no quintal, gosta
de ver a água corar com as folhas de chá e de limpar a lama preta que impregna
as unhas dos pés, fala sozinha, conta histórias para o neto enquanto coloca
cobertura no bolo de chocolate, menino traquina, bota dedo maior de todos e fura
bolo no meio da forma, se lambuza, tem medo de cemitérios e alienígenas e tem
febre quando sente saudades, morde a ponta do lápis na prova de matemática e
aprende que ele é da mesma matéria da raiz da árvore que invade a calçada, essa
que tem círculos no tronco que denunciam idades, como pele, como rugas, como
sinais feitos pelo sol, como gente que gira e volta e nunca se encontra e se
perde, como aquele pássaro que tentou prender em arapuca, tão lindo e livre no
alívio de não pertencer, e soltou pluma na fuga, essa que une menina que
espia, capoeirista que ama e ginga,
poeta que rima e chora, enfermeira que cuida e cansa, avó que esquece,
fotógrafo que sonha, pedreiro que não ri, moça do pet shop que enlouquece, mãe que
sobrevive do ofício de ser, menino que cresce e eu, que sei que de tudo fica o
que atravessa, desenho uma mandala com teus olhos negros e mágicos no centro de tudo.
Ilustração: Shozo Ozaki
Ilustração: Shozo Ozaki

Adorei o texto só com vírgulas. É do direito de escrever para que as pessoas respirem só um cadinho... ficou muito lindo! quando escrevo assim fico pensando no ofegar de quem lê e penso que vão sentir como eu! obrigada por essa maravilha.
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