![]() |
| Tatuagem de parede. Recife, 2019. |
Ernande
Valentin do Prado
Tenho
49 anos, esse ano ainda devo fazer 50 e está claro que o tempo que ainda tenho
para viver, é menor do que o tempo que já vivi. E para ser sincero, isso não me
amedronta e nem me deixa frustrado.
Até
agora fiz o que precisava e podia fazer. Sei que ainda posso fazer outras
coisas, certamente, mas mesmo que não faça, já fiz o que tinha que fazer.
Tenho
três filhas, plantei algumas arvores e escrevi livros. Isso quer dizer que venci
na vida?
Em
muitos aspectos sinto que venci na vida, afinal de contas são poucas as pessoas
que conseguem chegar onde eu cheguei, saindo de onde sai. Meus país não
chegaram a concluir o ensino básico, mas fizeram questão que todos os seus
filhos estudassem. Minhas irmãs, muito mais talentosas do que eu, não fizeram
faculdade. Eu fiz. Por isso sou melhor que elas?
Não
sou, sei disso. Mesmo assim ser o primeiro da família a fazer faculdade, mesmo
considerando primos e primas, não deixa de ser uma pequena vitória. Mas não
ganhei dinheiro, que é o que se considera vencer na vida de verdade.
Quando
eu morrer, em pouco tempo ninguém se lembrará de mim. Mas não só de mim, o
mundo não vai se lembrar de quase ninguém. Não se lembrará de você também. Fiz
faculdade, fiz especialização, fiz metrado e talvez ainda faça doutorado. Significa
que venci na vida, que terei um legado para deixar?
O
mercado nos educa para vencer na vida, mas o que é vencer na vida? Tenho
parentes que têm caminhão, uma mansão e dinheiro no banco. Eu tenho livros
escritos, mas de verdade não acho que tenha vencido menos nada vida, nem mais.
Quando
eu morrer, em quase tempo nenhum, nada sobre mim será lembrado e nem deles. E
de fato não precisa.
Islany,
minha colega de trabalho, me disse, quando ouviu eu falar isso: e os seus
livros?
Tem
isso. Tem aquele da capa azul que eu gosto muito, e aquele da capa com casinhas
coloridas, lindo, lindo e vendeu muito, quase dois mil exemplares. E tem os artigos, tem os vídeos, os podcast,
tem minhas filhas, meus ex-alunos, os companheiros de vida e de luta que me
tocaram e foram tocados por mim. Tem os amigos eternos, mas nada disso será
lembrado, nada disso terá importância depois de um tempo. Cada época tem as
suas lutas e seus nomes.
Se
eu tivesse escrito Angústia, de Graciliano Ramos, ou Grande Sertão Veredas, de
Guimarães Rosa ou Terra Vermelha, de Domingos Pellegrini, talvez fosse
lembrado. Mas não escrevi e não vou mais escrever. E isso também não me frustra
mais.
Nem
as pessoas que amei e foram muitas, nem as pessoas que distratei, que também
foram muitas, nada vai permanecer. Nem as razões do amor e do rancor.
Não
importa.
Só
uma coisa realmente me assusta, para o futura. Será que vou partir deste mundo
o deixando tão desesperador quanto cheguei?
Será
que não vou deixar o mundo um pouco melhor para minhas filhas?
Quando
nasci, em 1970, o Brasil era uma ditadura que comemorava o tricampeonato
mundial de futebol. E agora nem copa
para comemorar temos. É um horror, um desamor atrás do outro.
Mais
ainda, me deixa frustrado viver em um mundo onde o presidente diz que em seu
governo não terá um centímetro de terras para indígenas ou quilombola. Não
exatamente pelo que ele diz, mas pelo que isso significa de desamor ao próximo.
Suportar
um presidente assim eu ainda aguentaria, mas não sei se quero continuar vivendo
por mais tempo em um mundo onde as pessoas riem e apoiam as falas de gente como
esse presidente.
As
risadas dos seus apoiadores, idiotas ou conscientes, é o que acaba comigo e dá
uma imensa canseira deste mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário
O que tem a dizer sobre essa postagem?