27 março 2020

UM MANIFESTO DE SOFRIMENTO

Tatuagem de parede. Recife, 2019. 



Ernande Valentin do Prado

Tenho 49 anos, esse ano ainda devo fazer 50 e está claro que o tempo que ainda tenho para viver, é menor do que o tempo que já vivi. E para ser sincero, isso não me amedronta e nem me deixa frustrado.
Até agora fiz o que precisava e podia fazer. Sei que ainda posso fazer outras coisas, certamente, mas mesmo que não faça, já fiz o que tinha que fazer.
Tenho três filhas, plantei algumas arvores e escrevi livros. Isso quer dizer que venci na vida?
Em muitos aspectos sinto que venci na vida, afinal de contas são poucas as pessoas que conseguem chegar onde eu cheguei, saindo de onde sai. Meus país não chegaram a concluir o ensino básico, mas fizeram questão que todos os seus filhos estudassem. Minhas irmãs, muito mais talentosas do que eu, não fizeram faculdade. Eu fiz. Por isso sou melhor que elas?
Não sou, sei disso. Mesmo assim ser o primeiro da família a fazer faculdade, mesmo considerando primos e primas, não deixa de ser uma pequena vitória. Mas não ganhei dinheiro, que é o que se considera vencer na vida de verdade.
Quando eu morrer, em pouco tempo ninguém se lembrará de mim. Mas não só de mim, o mundo não vai se lembrar de quase ninguém. Não se lembrará de você também. Fiz faculdade, fiz especialização, fiz metrado e talvez ainda faça doutorado. Significa que venci na vida, que terei um legado para deixar?
O mercado nos educa para vencer na vida, mas o que é vencer na vida? Tenho parentes que têm caminhão, uma mansão e dinheiro no banco. Eu tenho livros escritos, mas de verdade não acho que tenha vencido menos nada vida, nem mais. 
Quando eu morrer, em quase tempo nenhum, nada sobre mim será lembrado e nem deles. E de fato não precisa.
Islany, minha colega de trabalho, me disse, quando ouviu eu falar isso: e os seus livros?
Tem isso. Tem aquele da capa azul que eu gosto muito, e aquele da capa com casinhas coloridas, lindo, lindo e vendeu muito, quase dois mil exemplares.  E tem os artigos, tem os vídeos, os podcast, tem minhas filhas, meus ex-alunos, os companheiros de vida e de luta que me tocaram e foram tocados por mim. Tem os amigos eternos, mas nada disso será lembrado, nada disso terá importância depois de um tempo. Cada época tem as suas lutas e seus nomes.
Se eu tivesse escrito Angústia, de Graciliano Ramos, ou Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa ou Terra Vermelha, de Domingos Pellegrini, talvez fosse lembrado. Mas não escrevi e não vou mais escrever. E isso também não me frustra mais.
Nem as pessoas que amei e foram muitas, nem as pessoas que distratei, que também foram muitas, nada vai permanecer. Nem as razões do amor e do rancor.
Não importa.
Só uma coisa realmente me assusta, para o futura. Será que vou partir deste mundo o deixando tão desesperador quanto cheguei?
Será que não vou deixar o mundo um pouco melhor para minhas filhas?
Quando nasci, em 1970, o Brasil era uma ditadura que comemorava o tricampeonato mundial de futebol.  E agora nem copa para comemorar temos. É um horror, um desamor atrás do outro.
Mais ainda, me deixa frustrado viver em um mundo onde o presidente diz que em seu governo não terá um centímetro de terras para indígenas ou quilombola. Não exatamente pelo que ele diz, mas pelo que isso significa de desamor ao próximo.
Suportar um presidente assim eu ainda aguentaria, mas não sei se quero continuar vivendo por mais tempo em um mundo onde as pessoas riem e apoiam as falas de gente como esse presidente.
As risadas dos seus apoiadores, idiotas ou conscientes, é o que acaba comigo e dá uma imensa canseira deste mundo

[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]


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