Maria Emília Bottini
Ninguém quer estar ou ficar doente.
Doenças chegam e muitas delas sem muitas explicações científicas nos tornam
frágeis e humanos. Doenças são experiências que precisamos enfrentar e muitas
vezes são sábias professoras, a mim ensinam e muito. A forma como as aceitamos
e as encaramos determina se as superamos ou se elas nos superam.
Venho de um longo período de problemas de
saúde, por vezes achei que não iria aguentar, mas aguentei. Todos os problemas
que tive me deixaram mais forte e mais realista diante da única certeza da
vida: a morte e o morrer. Diagnósticos nos aproximam da morte; nos lembram que
temos um tempo de vida, de viver a vida.
Sentir dores e não saber o que se tem é
angustiante. Passei por muitos momentos sem saber o que fazer para ter um pouco
de alívio e tranquilidade. A dor me deixou muitas vezes sem paciência e
desmotivada. Tive amigos, familiares, esposo que tornaram as coisas um pouco
mais leves, mas a dor era sentida apenas por mim, eu era quem tinha que dar
conta do que se apresentava dia após dia. Tenho um amigo que sempre diz:
“aceita que dói menos”, tentei pensar nesta filosofia de vida, me ajudou em
parte.
Comecei a sentir dores homéricas nos
pulsos, ombro e quadril direito. Uma busca complicada ao longo de um ano e meio
por diagnóstico entre traumatologistas e reumatologistas. Sei que cansei, mas
as dores sentidas me impeliam a continuar as buscas. Entre exames, consultas,
reconsultas veio o diagnóstico de artrite reumatoide; uma doença
inflamatória crônica, autoimune que afeta as membranas sinoviais (fina camada
de tecido conjuntivo) de múltiplas articulações (mãos, pulsos, cotovelos,
joelhos, tornozelos, pés, ombros, coluna cervical) e órgãos internos como
pulmões, coração e rins dos indivíduos geneticamente predispostos. A progressão
da doença está associada às deformidades e alterações das articulações, que
podem comprometer os movimentos.
Passei a tomar uma leva de medicação para obter a remissão dos
sintomas, preservar a capacidade funcional e evitar a progressão da doença. Medicações fazem mal à saúde, mas são
necessárias. Confesso
que ter um diagnóstico me deixou aliviada, mas nem tanto. As dores diminuíram
significativamente e isso é muito bom, hoje entendo mais os que desistem de
continuar a sentir dores. Chega um momento que você não quer mais sentir dor
seja de que ordem for, e tudo bem.
Durante as crises de dor encontrei uma
amiga que me falou de um projeto de leitura dentro de um hospital e achei a
ideia encantadora. Solicitou-me doação de livros e o fiz. No entanto, achei que
poderia fazer mais. Desde aquele encontro pensei em fazer alguns marcadores de
páginas com florezinhas. Comecei uma excursão entre linha, agulha, feltros,
botões, tesoura, paciência e persistência.
Decidi que faria os marcadores. Comprei
feltro amarelo, fiz os cortes que entendia serem necessários e tentei fazer as
flores como as que tinha em um caixinha que havia se deteriorado com o tempo.
Tentei, me irritei, desisti e coloquei no
lixo as cinco primeiras pétalas. Dei um tempo para minha paciência. Passadas
algumas horas, pensei que poderia tentar novamente. Recolhi do lixo
os pedacinhos de feltro e insisti na minha intuição e a primeira flor surgiu.
Gostei do resultado, visto que era muito
prático e fácil de confeccioná-las. Fiz duas delas e coloquei um palito de
madeira, ficaram lindas, não tinha ideia de como fazer os marcadores. Algumas
pessoas me deram sugestões e foram acontecendo, outras cores foram sendo
compradas. Os marcadores ficaram encantadores e passaram a fazer parte do
projeto, de cadernos, de livros. Também fiz flores com pauzinhos que enfeitaram
as mãos de muitas mulheres no dia das mulheres, vasos de flores, estantes...
Daquele dia em diante não parei mais e
quando me perguntam se estou bem das dores, respondo que tenho transformado dores
em flores. Mesmo agora que as dores diminuíram as flores seguem sendo feitas e
distribuídas aos que me fazem bem, porque isso me faz muito bem também.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos
Sábados]

Que lindo, Emília! A dor, além de doer tb pode nos tornar melhores! Parabéns!!
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