04 abril 2020

DAS DORES ÀS FLORES


 Maria Emília Bottini


Ninguém quer estar ou ficar doente. Doenças chegam e muitas delas sem muitas explicações científicas nos tornam frágeis e humanos. Doenças são experiências que precisamos enfrentar e muitas vezes são sábias professoras, a mim ensinam e muito. A forma como as aceitamos e as encaramos determina se as superamos ou se elas nos superam.
Venho de um longo período de problemas de saúde, por vezes achei que não iria aguentar, mas aguentei. Todos os problemas que tive me deixaram mais forte e mais realista diante da única certeza da vida: a morte e o morrer. Diagnósticos nos aproximam da morte; nos lembram que temos um tempo de vida, de viver a vida.
Sentir dores e não saber o que se tem é angustiante. Passei por muitos momentos sem saber o que fazer para ter um pouco de alívio e tranquilidade. A dor me deixou muitas vezes sem paciência e desmotivada. Tive amigos, familiares, esposo que tornaram as coisas um pouco mais leves, mas a dor era sentida apenas por mim, eu era quem tinha que dar conta do que se apresentava dia após dia. Tenho um amigo que sempre diz: “aceita que dói menos”, tentei pensar nesta filosofia de vida, me ajudou em parte.
Comecei a sentir dores homéricas nos pulsos, ombro e quadril direito. Uma busca complicada ao longo de um ano e meio por diagnóstico entre traumatologistas e reumatologistas. Sei que cansei, mas as dores sentidas me impeliam a continuar as buscas. Entre exames, consultas, reconsultas veio o diagnóstico de artrite reumatoide; uma doença inflamatória crônica, autoimune que afeta as membranas sinoviais (fina camada de tecido conjuntivo) de múltiplas articulações (mãos, pulsos, cotovelos, joelhos, tornozelos, pés, ombros, coluna cervical) e órgãos internos como pulmões, coração e rins dos indivíduos geneticamente predispostos. A progressão da doença está associada às deformidades e alterações das articulações, que podem comprometer os movimentos.
Passei a tomar uma leva de medicação para obter a remissão dos sintomas, preservar a capacidade funcional e evitar a progressão da doença. Medicações fazem mal à saúde, mas são necessárias. Confesso que ter um diagnóstico me deixou aliviada, mas nem tanto. As dores diminuíram significativamente e isso é muito bom, hoje entendo mais os que desistem de continuar a sentir dores. Chega um momento que você não quer mais sentir dor seja de que ordem for, e tudo bem.
Durante as crises de dor encontrei uma amiga que me falou de um projeto de leitura dentro de um hospital e achei a ideia encantadora. Solicitou-me doação de livros e o fiz. No entanto, achei que poderia fazer mais. Desde aquele encontro pensei em fazer alguns marcadores de páginas com florezinhas. Comecei uma excursão entre linha, agulha, feltros, botões, tesoura, paciência e persistência.
Decidi que faria os marcadores. Comprei feltro amarelo, fiz os cortes que entendia serem necessários e tentei fazer as flores como as que tinha em um caixinha que havia se deteriorado com o tempo.
Tentei, me irritei, desisti e coloquei no lixo as cinco primeiras pétalas. Dei um tempo para minha paciência. Passadas algumas horas, pensei que poderia tentar novamente.  Recolhi do lixo os pedacinhos de feltro e insisti na minha intuição e a primeira flor surgiu.
Gostei do resultado, visto que era muito prático e fácil de confeccioná-las. Fiz duas delas e coloquei um palito de madeira, ficaram lindas, não tinha ideia de como fazer os marcadores. Algumas pessoas me deram sugestões e foram acontecendo, outras cores foram sendo compradas. Os marcadores ficaram encantadores e passaram a fazer parte do projeto, de cadernos, de livros. Também fiz flores com pauzinhos que enfeitaram as mãos de muitas mulheres no dia das mulheres, vasos de flores, estantes...
Daquele dia em diante não parei mais e quando me perguntam se estou bem das dores, respondo que tenho transformado dores em flores. Mesmo agora que as dores diminuíram as flores seguem sendo feitas e distribuídas aos que me fazem bem, porque isso me faz muito bem também.


[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 



Um comentário:

  1. Que lindo, Emília! A dor, além de doer tb pode nos tornar melhores! Parabéns!!

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