16 junho 2020

PRA MICHELE QUE PARTIU PRA LISBOA


Maria Amélia Mano

      Senhor, o Capitão-mor desta vossa frota, escreve a Vossa Alteza a nova do achamento  e perdição desta que seria vossa terra nova. 

Explico-vos com devotada vergonha. De marinhagens e singraduras do caminho não darei aqui conta, porque não o saberei, pelos meus sentidos atraiçoados. Lembro-me sob nuvens que ao décimo quinto dia do dito mês de junho, após o amanhecer, se perdeu da frota, com vento e chuva forte, a nossa nau capitânia. Topamos com sinais de terra, ervas verdes e aromáticas a que os mareantes avistaram primeiro dum grande monte; e doutras serras mais baixas ao sul, terra chã.

Foi ancoragem limpa em grande arvoredo. Os nativos, todos nus, pardos, maneira de avermelhados, acenderam tochas, dançaram e bailaram, ao som dum tambor, por toda praia formosa, de ponta a ponta. Estavam a preparar grande ritual. Até agora, não sabemos de ouro ou prata do lugar, mas nos esforçamos e após, nos rejubilamos a entender a razão da ciranda. Pois no afã de descobrir e libertar gente tão selvagem, pusemo-nos com tamboris e danças nossas a repetir os cânticos pagãos.

Em luas destes tempos que porventura os selvagens não marcam, mas pressentem, estas terras de águas muitas; infindas, graciosas, donde dar-se-á nelas tudo que semear, festejam nascimentos especiais. Um feiticeiro falou em idioma mágico sobre mulheres corajosas, de olhos e olhares com brilho de mares ainda não descobertos. Mulheres que dormem com felinos. Mulheres que sorriem intensamente tanto quanto choram. Mulheres sem âncoras,  viajantes de supostas caravelas de asas. Mulheres que escrevem belezas nas nuvens, nos rios, nas terras.

Diz-se que, em pouco mais que cinco séculos vindouros, a mais preciosa gerada e nascida nestas estará a observar o Tejo com saudade e paixão. Chamar-se-á Michele e deixará além mar, a alegria iluminada. Após esta revelação, da parte deste humilde escrivão que vos redige tal detalhado e inusitado acontecimento, houve provável presença dos mesmos espíritos que devoram naus perdidas, incluindo a do Padre que solicita sigilo e implora clemência pela visão, perdição. Todos se puseram a dançar.

Senhor, o Capitão-mor desta vossa frota, tripulantes, todos fiéis, comprometer-se-á com o novo descobrimento em retorno ao mesmo monte e terra. A evitar feitiços, haverá a rápida colocação de suntuosa cruz e celebração de missa com os nativos. Outra carta guardará dignamente o heróico achamento de vossa terra. Apesar do aparente infortúnio, teremos a honra e a ventura de ter a Michele, doçura que creio que existirá, como existe o raio de sol da praia mágica. Que nosso Tejo e nossos descendentes a acolham e cuidem.

Pero Vaz de Amélia

Texto parte da coletânea organizada por amigos da Michele como presente de aniversário

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