21 novembro 2020

A ARTE COMO POSSIBILIDADE


 Maria Emília Bottini

Recebi uma ligação da minha ex-colega de inglês, a qual me questionou se eu era psicóloga, pois já não lembrava, tinha algum tempo que não nos víamos, diante de minha afirmativa, solicita-me ajuda para um adolescente em vulnerabilidade social e afetiva.

  Minha colega possui uma Organização Não Governamental (ONG), criada para superar a dor da perda de um filho adolescente em um acidente automobilístico quando voltava para casa da escola. Ao conhecer sua entidade, emocionei-me pelo trabalho realizado com amor e dedicação aos muitos filhos que adotou, isso a ajudou a superar sua dor, mas até hoje ao falar dela, lágrimas surgem em seus olhos. Acolhe crianças, adolescentes e pais com biblioteca, brinquedoteca, brechó, gabinete dentário, sala de reforço escolar, almoço, lanches. Espaço construído com recursos próprios e com o apoio de amigos e alguns colaboradores.

Ao conhecer o adolescente com nome de anjo passei horas triste e pensativa questionando-me como o ajudaria. Em nosso primeiro encontro também vieram seus três irmãos, todos mais jovens que ele, e ao falarem de suas dores, choraram compulsivamente, um choro carregado de saudades de seus mortos que ainda viviam em suas memórias.

Em sua dor mora a perda trágica da sua mãe em tenra idade. Ele e seus irmãos foram morar com a avó materna: amorosa e acolhedora. Essa avó perdeu outro filho para a violência urbana, algum tempo depois dessa morte teve um infarto fulminante e morreu, deixando duplamente órfãos seus netos/filhos. Pudera era seu segundo filho que morrera tragicamente, por vezes o coração não aguenta uma cota elevada de dor e perdas e se recusa a continuar batendo.

Adolescente tímido, frequenta Ensino Médio com aproveitamento razoável, fala pouco, mas é sábio no que diz, gosta de desenhar, desenha personagens de mangás (revistas em quadrinhos japonesas).

Ao ver seus desenhos percebi que havia um talento nato em seus traçados. Conversarmos sobre seu talento e ele me conta que havia um colega na escola que desenhava, se interessou e pediu para aprender, mas não obteve êxito. O colega apenas lhe deu um desenho e deste partiu sua aprendizagem, interesse e paixão. Para aplacar a tristeza, que por vezes o fez perder a vontade de viver, ele desenha.

Mora com a tia que não tem renda alguma, vivem de doações. Até para seus desenhos minha amiga fornece canetas e papéis, nem mesa há na casa para que possa se sentar e desenhar. Conheci sua casa em uma visita domiciliar que fiz. A pobreza e a falta a denunciar com quão pouco viviam, mas havia flores na entrada da casa e estava limpa e arrumada. Havia um cuidado para com o pouco na casa em que vivem seis pessoas.

Um dia estava na xerox da Universidade de Brasília (UnB), conheci uma professora que estava fazendo cópias de alguns desenhos, eram mangás feitos por sua aluna talentosa. Como sou curiosa, me interessei pelos desenhos, a autora estava junto. Era uma professora de uma sala de altas habilidades para alunos da rede pública do Distrito Federal. A aluna que a acompanhava era uma delas. A professora me convidou para conhecer seu trabalho, mas não o fiz, ainda não conhecia o adolescente com nome de anjo, talvez era o destino preparando seu caminho.

Após conhecer o adolescente, entrei em contato com a professora e pensei que ela poderia ser o elo para ajudá-lo e aprender a aperfeiçoar seu talento. Dessa forma, poderia alimentar sua alma ferida e desanimada que a vida esmagou, mas que com a dor criava arte.

Fui até a escola em que trabalhava e a procurei, falei brevemente do meu paciente e lhe pedi para auxiliá-lo, aceitá-lo com aluno, pois estudava em outro estado. Ela concordou em ajudar. Eu brinco que naquele dia operei um milagre. Combinamos que o acompanharia para fazer as apresentações. Desde então, ele frequenta a escola uma vez por semana e lá desenvolve um projeto por iniciativa própria de uma revista em quadrinhos com mangás que será lançada no final deste ano.

Atendi algumas vezes esse adolescente, conversei com sua tia que era responsável por ele e seus irmãos. Sua história me mobilizava a cada encontro, pois era desafiador ajudá-lo, acreditava na arte como um fio condutor para encontrar a saúde mental e um novo sentido para a vida, apesar de sua história. Sonha em ser cartunista e conhecer o Japão. Certo dia estava na biblioteca da entidade, encontrei dois livros que tratavam do Japão e os emprestei a ele.

Tive uma fofa professora de inglês, hoje amiga de extrema sensibilidade, em uma de nossas aulas comentei sobre a história desse adolescente, no que se comoveu e me doou algum dinheiro que foram investidos em papeis e canetas nanquim, ideal para mangás. Entreguei a ele que com os olhos marejados me pergunta: “São para mim?”.

Os ventos sopraram em minha vida e por força do movimento fui impulsionada a retornar a morar no Rio Grande do Sul. Tive de me despedir prematuramente dele o que para mim foi um tanto difícil, foram poucos os encontros que tivemos, mas foram ricos em cuidado e ajuda emocional.

Ao me despedir dele choramos juntos a dor da despedida. Ele me disse “nunca vou esquecer o que fez por mim”. Devolvi-lhe seus desenhos que apresentei para a professora, mas ele insistiu que ficasse comigo, sou guardiã do talento dele, talvez para me lembrar que a arte pode ser uma possibilidade de cura para uma alma ferida e amassada pelas perdas no ciclo de viver.

 

 [Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 

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