Quando a mercantilização da
educação começou a dar cambalhotas sobre a demanda reprimida das graduações, o
Serviço Social foi daquelas formações galopadas. Brotaram salas de aulas em
tudo quanto é lugar. Parecia nascimento de tiririca pós chuva... Confesso que
não acreditava que havia tanta gente prá cursar a profissão... pois havia! Teve
ano que duas redes formaram 140 mil assistentes sociais enquanto as
Universidades Públicas formavam, ao todo, 3 a 3,5 mil profissionais.
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come
Nós de Mato Grosso do Sul tínhamos
4 cursos presenciais com histórico de 40 anos como o da UCDB, de 12 anos da
UNIGRAN em Dourados, outros 10 da UNIDERP e acho que uns 8 anos da FCG...
Quando os EaDs iniciaram vieram feito
línguas de tamanduá... por onde abriam as salas, engoliam toda a demanda dos
presenciais. Não havendo curso público de Serviço Social em nosso estado, as
ofertas privadas e comunitárias foram sendo sugadas pelas à distância. Além do
acesso perto das moradias (em quase todos os municípios do estado havia turma
de Serviço Social), também o custo financeiro para o acesso ao estudo
universitário privado atraía grande: custava, no máximo, 1/3 do valor dos presenciais.
E ainda tinha o discurso fantástico
que o EaD incluía as mulheres! Esse discurso acabava com quaisquer tentativas
de crítica... sem chance de desfazer os argumentos! pracabá como diriam Zany e
Liana!!!!!
E, não havendo planejamento no QG
do Brasil, o aumento da cobertura das políticas de assistência social e de
saúde (especialmente a partir de 2003) esperançava parte das mulheres da classe
trabalhadora mais empobrecida a ir aos bancos escolares vislumbrando um posto
de trabalho. As maduras, pós criação de filhos voltavam para estudar!
E, como a Universidade pública não
abriu os cursos necessários e o mundo do trabalho requereu profissionais...,
grassavam a formação em EaD. O mercado da educação cresceu em escala super
geométrica. Algumas estudantes iam uma vez por semana receber tutoria, outras,
uma vez por mês. E cada uma foi se tornando assistente social.
Sim, o capitalismo funcionou em
toda a sua plenitude de extensividade e intensividade, como diria Otávio Ianni:
mercantilizou a formação de assistentes sociais tornando-nos massa, moeu os
fundamentos político-ideológicos colocando-os no olimpo, precarizou a
contratação para os postos de trabalho em nome de aumentar a cobertura da
formação, despossuiu de valor o estágio (anteriormente cheio de regras e
monitoramento). Acho mesmo que o pior foi o acontecido com esse... tinha gente
que fez estágio em 15 dias... outros em um mês! O tal do estágio em três e
quatro semestres, as 500 e tantas horas... isso era coisa passada. Então o EaD
também moeu a organização e formação dos supervisores de campo.
Mas o pior ainda estava por vir:
Se, de um lado, o EaD seduzia com múltiplas motivações, por outro lado, as
organizações da categoria, com seus discursos herméticos (ideologicamente
corretos, mas incapazes de chegar aos rincões físicos e de quase nenhum acesso
a quem tem poucas letras) caía na sedução de disputar o discurso com o capital
e começava a condenar o estudo EaD. Por conseguinte, muitos estudantes se
sentiram discriminados (e muitos realmente o foram - inclusive, vaiados em
eventos!). E os CRESS de alguns estados que se recusavam a registrar os
egressos de EaD... ? confusão total, emaranhado... carrapicho .... tudo
complicado!
Na sequência, estávamos nós, militantes de
direitos entre a cruz e a caldeirinha. As organizações da catiguria faziam análise de estrutura e conjuntura corretíssimas e
atuações descontextualizadas... Pior: não dialogavam com os estudantes que
estavam, aos milhares, “assistindo aulas” pelo Brasil inteiro. Estava feito o
furdunço em que quase todos os lados estavam certos, mas não havia cipós para
amarrar as conversas. E ainda tinha um mundo de empregabilidade que contratou
tutores assistentes sociais e coordenadores dos cursos. Quase todos advindos
dos presenciais e alguns com currículo de referência...
Era demais de conversa
despolitizada! Isso se deu de tal monta que era possível vivenciar em uma
reunião de cinco pessoas um debate rasteiro do contra e a favor do EaD e aí
nada mais continuava. Vivi isso em capacitações do SUS, em eventos do CRESS, em
debates com estudantes, nas residências multiprofissionais... Estudantes e
profissionais advindos dos cursos EaDs assumiam o discurso de defesa da
qualidade formativa como mérito pessoal, como sacrifício familiar, com conteúdo
maior que os presenciais... E, maioria das vezes que eu pude estar, parte dos
demais estudantes partiam em defesa deles... estudantes defendendo estudantes!
Era quase revolucionário não fosse porque, miravam os esforços em defesa dos
estudantes e nenhuma condenação ao mercado da educação...
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
E eu, que sempre ia de peito aberto
para ouvir acabava sempre envolvida em discussões rasas, despossuídas de
consciência de classe, e cheia de lógicas e histórias de vida de mulheres
adultas, empobrecidas, majoritariamente negras, periféricas e interioranas... Dentre
todas essas características de desigualdade de acesso e garantia de direitos,
uma leva importante era composta de mantenedoras das famílias e cuidadoras de
ascendentes e descendentes. Cursar Universidade, nesse caso era a própria
possibilidade de constituir-se como um ser social em mobilidade de classe.
Quando via os olhos brilhando das
mulheres advindas do EaD eu ficava sempre pensando o quanto a minha
racionalidade era malvada com o sonho delas. Mas também não era muito diferente
das mulheres que estavam nos cursos presenciais que duraram até 2016, 2018, os
últimos... Também elas tinham uma formação baseada na transmissão de conteúdo,
sem nada ou quase nada de extensão. Os Pibic da vida só rolavam na UCDB e era
sempre exceção, tanto porque eram poucos os professores que tinham projetos de
pesquisa e menos ainda o número de estudantes que podiam participar, pois eram
trabalhadoras e o labor as impedia.
Então, adaptando o pensamento do
Boetie (século XVI) para essa realidade, eu sempre me perguntava: como explicar
o que é uma formação em Serviço Social fundamentada no projeto ético-político
que tenha se constituído em gentes que nunca vivenciaram a extensão e a
pesquisa? O carinha lá de 1530 dizia: como explicar a liberdade para quem nunca
a viveu?
E ainda tinha uma outra informação
importante: quem estava nas universidades privadas, mais de 90% pagava as
mensalidades com ProUni e FIES. Eram essas mulheres que vislumbravam na
universidade uma grande possibilidade de superação da linha da pobreza a partir
da elevação do estudo.
Fui professora na UNIGRAN de
2004-2007 e o curso estava em expansão. As políticas sociais também!. Depois
passei na seleção para a UCDB e fiquei de 2014-2016. O curso estava já em
diminuição de alunas e as políticas seguiam em expansão, em estado de espera de
serem necropolitizadas.
Entre o meu pedido para sair da
Unigran e minha demissão da UCDB não tinha mudado somente a dinâmica de
formação universitária em Serviço Social. Sobretudo, as perspectivas de ser
professora tinham ido ao fundo do poço. Além da idade já começar a ser um
empecilho para fazer o concurso, a fidelização às lutas de classe, não combinavam
com a servidão (tomando a ideia do Ricardo Antunes!) aos cursos em EaD. E,
assim, fecharam-se possibilidades de postos de trabalho na condição de
professora presencial em Serviço Social. Sem estudantes não há professoras...
simples assim!
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
O momento exato da ocorrência de
ter sido defenestrada desse mundo do trabalho, ainda está vivo na minha memória
e de quem participou dos fatos.
Era dessas datas, dias antes de
fechar o primeiro semestre e sentaram-se em reunião 7 assistentes sociais
professora daquela universidade. O tema era a não abertura de turma, falta de
demanda para o curso presencial. Foi proposto que todas se tornassem
professoras no EaD em diferentes funções: coordenação, conteudistas, tutoras...
6 mestres e uma doutora presentes. E a perspectiva era isso ou aquilo... e, o
aquilo era o desemprego.
Ainda lembro que propus que
ficássemos as sete até finalizar a última estudante. Mesmo com as aulas
diminuídas teríamos que ser uma forma de resistência. Também poderíamos
conversar em outros cursos para que pudéssemos continuar empregadas.
Ao final, a coordenadora ficou de
conversar internamente na Universidade de como nos “reaproveitar”; eu propus que fizéssemos uma reunião com a
pró-reitoria de graduação para traçarmos um plano de nos manter no curso, mesmo
com pouquíssimas aulas.
Sobre o curso de Serviço Social em
EaD, quatro não se dispuseram às funções. Duas se dispuseram a ser conteudistas
e uma ficou calada. A mais antiga presente, negra braba de luta ainda lembrou
que grande parte daquelas que construíram o curso EaD na concorrência tinham sido
também professoras da mesa onde estávamos. Ou seja, muita gente também foi
levada inicialmente pela língua do tamanduá.
Sobre a coordenação do curso
presencial, não quisemos discutir naquele momento, marcando reunião dois dias
após, quando então teríamos um posicionamento da pró-reitoria.
Durante toda a discussão, a calada
também não se dispôs a nada. Mas...
No dia seguinte, a calada ligou para cada uma de nós e
disse que era candidata a coordenadora. Fomos demitidas de duas em duas a cada
semestre, inclusive as conteudistas... (e isso merece um causo a parte)
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
E, quase cinco anos depois, em
tempos de pandemia e conversando quase sempre por internet, ao lembrar dos
cursos presenciais fechados e das nossas demissões, ainda ouvi que fui eu que
não soube negociar, que me expus demais como sectária em relação ao EaD
(lembrando que na pandemia dou um monte de aulas síncronas e assíncronas), que
sempre quis me mostrar esquerdopata, etc e tal... Ainda tentam me convencer que
sou eu a culpada... Pior: é assistente social que fala... oh vida difícil de
convivência com gente que não vê o mundo... só vê o umbigo...
E a tal da acumulação capitalista
segue absolvida e absorvida como a língua do tamanduá que a todas as formigas
engole.
Carcará come inté cobra queimada
E, nesse mesmo dia de pandemia,
dentro de mim eu cantava... e já me preparava prá desligar a reunião... quando
uma daquelas que se dispõe a capitã do mato do capitalismo, em sua felicidade
diz altivamente: Enfim, parece que o preconceito contra estudantes de EaD vai
acabar... afinal, daqui prá frente todos são e serão EaD.
Olhei pela fresta da janela
entortada pelo tempo e vi a extensão de braquiária à frente. Há que seguir com
pó-de-serra tentando cozinhar as batatas da tiririca, há de deixar que nasçam e
cresçam as sementes trazidas pelos pássaros nessa terra de araras, há que se
proteger as marias-sem-vergonha perto da cerca...
E como enfrentar os carcarás e as capitãs
do mato? Que possibilidades se apresentam em tempos de felicidade em
conseguirmos ser escravizadas? Oh desgraceira de capitalismo!
Prá sobreviver, só dançando no
forró do João do Vale! Suando, cantando e cirandeando... e trazendo um monte de
gente prá roda...
Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada. Imagem EBC.

Isso contempla o que penso. Eu estudante EAD percebo a desigualdade quando por não ter condições financeiras e também o acesso a educação superior pública "optei" pelo EAD.
ResponderExcluirque alegria sentir que as estudantes do EaD estão compreendendo o quanto fomos exploradas até no nosso direito à educação... é muito difícil a dor da consciência! obrigada mesmo
ExcluirExcelente reflexão Estela
ResponderExcluirAngela querida, a nossa luta parece que não arrefece nunca... é todo dia, o dia inteiro! e a mercantilização da educação é uma que perdemos?
ExcluirExcelente reflexão Estela
ResponderExcluirParabéns pela reflexão, me lembro desse dia....minha sala foi a última turma do presencial, que tristeza foi perder nossos professores de excelência Física, Estela,Fernanda, Joana.....
ResponderExcluirCidoca
Excluirsimmmm, perdemos todas as professoras, as estudantes e a sociedade... triste!
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