04 abril 2021

ENTRE CARCARÁS E CAPITÃS DO MATO, ME ACODE JOÃO DO VALE!


 

Quando a mercantilização da educação começou a dar cambalhotas sobre a demanda reprimida das graduações, o Serviço Social foi daquelas formações galopadas. Brotaram salas de aulas em tudo quanto é lugar. Parecia nascimento de tiririca pós chuva... Confesso que não acreditava que havia tanta gente prá cursar a profissão... pois havia! Teve ano que duas redes formaram 140 mil assistentes sociais enquanto as Universidades Públicas formavam, ao todo, 3 a 3,5 mil profissionais.

Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come

Nós de Mato Grosso do Sul tínhamos 4 cursos presenciais com histórico de 40 anos como o da UCDB, de 12 anos da UNIGRAN em Dourados, outros 10 da UNIDERP e acho que uns 8 anos da FCG...

Quando os EaDs iniciaram vieram feito línguas de tamanduá... por onde abriam as salas, engoliam toda a demanda dos presenciais. Não havendo curso público de Serviço Social em nosso estado, as ofertas privadas e comunitárias foram sendo sugadas pelas à distância. Além do acesso perto das moradias (em quase todos os municípios do estado havia turma de Serviço Social), também o custo financeiro para o acesso ao estudo universitário privado atraía grande: custava, no máximo, 1/3 do valor dos presenciais.  

E ainda tinha o discurso fantástico que o EaD incluía as mulheres! Esse discurso acabava com quaisquer tentativas de crítica... sem chance de desfazer os argumentos! pracabá como diriam Zany e Liana!!!!!

E, não havendo planejamento no QG do Brasil, o aumento da cobertura das políticas de assistência social e de saúde (especialmente a partir de 2003) esperançava parte das mulheres da classe trabalhadora mais empobrecida a ir aos bancos escolares vislumbrando um posto de trabalho. As maduras, pós criação de filhos voltavam para estudar!

E, como a Universidade pública não abriu os cursos necessários e o mundo do trabalho requereu profissionais..., grassavam a formação em EaD. O mercado da educação cresceu em escala super geométrica. Algumas estudantes iam uma vez por semana receber tutoria, outras, uma vez por mês. E cada uma foi se tornando assistente social.

Sim, o capitalismo funcionou em toda a sua plenitude de extensividade e intensividade, como diria Otávio Ianni: mercantilizou a formação de assistentes sociais tornando-nos massa, moeu os fundamentos político-ideológicos colocando-os no olimpo, precarizou a contratação para os postos de trabalho em nome de aumentar a cobertura da formação, despossuiu de valor o estágio (anteriormente cheio de regras e monitoramento). Acho mesmo que o pior foi o acontecido com esse... tinha gente que fez estágio em 15 dias... outros em um mês! O tal do estágio em três e quatro semestres, as 500 e tantas horas... isso era coisa passada. Então o EaD também moeu a organização e formação dos supervisores de campo.

Mas o pior ainda estava por vir: Se, de um lado, o EaD seduzia com múltiplas motivações, por outro lado, as organizações da categoria, com seus discursos herméticos (ideologicamente corretos, mas incapazes de chegar aos rincões físicos e de quase nenhum acesso a quem tem poucas letras) caía na sedução de disputar o discurso com o capital e começava a condenar o estudo EaD. Por conseguinte, muitos estudantes se sentiram discriminados (e muitos realmente o foram - inclusive, vaiados em eventos!). E os CRESS de alguns estados que se recusavam a registrar os egressos de EaD... ? confusão total, emaranhado... carrapicho .... tudo complicado!

 Na sequência, estávamos nós, militantes de direitos entre a cruz e a caldeirinha. As organizações da catiguria faziam análise de estrutura e conjuntura corretíssimas e atuações descontextualizadas... Pior: não dialogavam com os estudantes que estavam, aos milhares, “assistindo aulas” pelo Brasil inteiro. Estava feito o furdunço em que quase todos os lados estavam certos, mas não havia cipós para amarrar as conversas. E ainda tinha um mundo de empregabilidade que contratou tutores assistentes sociais e coordenadores dos cursos. Quase todos advindos dos presenciais e alguns com currículo de referência...

Era demais de conversa despolitizada! Isso se deu de tal monta que era possível vivenciar em uma reunião de cinco pessoas um debate rasteiro do contra e a favor do EaD e aí nada mais continuava. Vivi isso em capacitações do SUS, em eventos do CRESS, em debates com estudantes, nas residências multiprofissionais... Estudantes e profissionais advindos dos cursos EaDs assumiam o discurso de defesa da qualidade formativa como mérito pessoal, como sacrifício familiar, com conteúdo maior que os presenciais... E, maioria das vezes que eu pude estar, parte dos demais estudantes partiam em defesa deles... estudantes defendendo estudantes! Era quase revolucionário não fosse porque, miravam os esforços em defesa dos estudantes e nenhuma condenação ao mercado da educação...


Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come

E eu, que sempre ia de peito aberto para ouvir acabava sempre envolvida em discussões rasas, despossuídas de consciência de classe, e cheia de lógicas e histórias de vida de mulheres adultas, empobrecidas, majoritariamente negras, periféricas e interioranas... Dentre todas essas características de desigualdade de acesso e garantia de direitos, uma leva importante era composta de mantenedoras das famílias e cuidadoras de ascendentes e descendentes. Cursar Universidade, nesse caso era a própria possibilidade de constituir-se como um ser social em mobilidade de classe.

Quando via os olhos brilhando das mulheres advindas do EaD eu ficava sempre pensando o quanto a minha racionalidade era malvada com o sonho delas. Mas também não era muito diferente das mulheres que estavam nos cursos presenciais que duraram até 2016, 2018, os últimos... Também elas tinham uma formação baseada na transmissão de conteúdo, sem nada ou quase nada de extensão. Os Pibic da vida só rolavam na UCDB e era sempre exceção, tanto porque eram poucos os professores que tinham projetos de pesquisa e menos ainda o número de estudantes que podiam participar, pois eram trabalhadoras e o labor as impedia.

Então, adaptando o pensamento do Boetie (século XVI) para essa realidade, eu sempre me perguntava: como explicar o que é uma formação em Serviço Social fundamentada no projeto ético-político que tenha se constituído em gentes que nunca vivenciaram a extensão e a pesquisa? O carinha lá de 1530 dizia: como explicar a liberdade para quem nunca a viveu?

E ainda tinha uma outra informação importante: quem estava nas universidades privadas, mais de 90% pagava as mensalidades com ProUni e FIES. Eram essas mulheres que vislumbravam na universidade uma grande possibilidade de superação da linha da pobreza a partir da elevação do estudo.

Fui professora na UNIGRAN de 2004-2007 e o curso estava em expansão. As políticas sociais também!. Depois passei na seleção para a UCDB e fiquei de 2014-2016. O curso estava já em diminuição de alunas e as políticas seguiam em expansão, em estado de espera de serem necropolitizadas.

Entre o meu pedido para sair da Unigran e minha demissão da UCDB não tinha mudado somente a dinâmica de formação universitária em Serviço Social. Sobretudo, as perspectivas de ser professora tinham ido ao fundo do poço. Além da idade já começar a ser um empecilho para fazer o concurso, a fidelização às lutas de classe, não combinavam com a servidão (tomando a ideia do Ricardo Antunes!) aos cursos em EaD. E, assim, fecharam-se possibilidades de postos de trabalho na condição de professora presencial em Serviço Social. Sem estudantes não há professoras... simples assim!


Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada

O momento exato da ocorrência de ter sido defenestrada desse mundo do trabalho, ainda está vivo na minha memória e de quem participou dos fatos.

Era dessas datas, dias antes de fechar o primeiro semestre e sentaram-se em reunião 7 assistentes sociais professora daquela universidade. O tema era a não abertura de turma, falta de demanda para o curso presencial. Foi proposto que todas se tornassem professoras no EaD em diferentes funções: coordenação, conteudistas, tutoras... 6 mestres e uma doutora presentes. E a perspectiva era isso ou aquilo... e, o aquilo era o desemprego.

Ainda lembro que propus que ficássemos as sete até finalizar a última estudante. Mesmo com as aulas diminuídas teríamos que ser uma forma de resistência. Também poderíamos conversar em outros cursos para que pudéssemos continuar empregadas.

Ao final, a coordenadora ficou de conversar internamente na Universidade de como nos “reaproveitar”;  eu propus que fizéssemos uma reunião com a pró-reitoria de graduação para traçarmos um plano de nos manter no curso, mesmo com pouquíssimas aulas.

Sobre o curso de Serviço Social em EaD, quatro não se dispuseram às funções. Duas se dispuseram a ser conteudistas e uma ficou calada. A mais antiga presente, negra braba de luta ainda lembrou que grande parte daquelas que construíram o curso EaD na concorrência tinham sido também professoras da mesa onde estávamos. Ou seja, muita gente também foi levada inicialmente pela língua do tamanduá.

Sobre a coordenação do curso presencial, não quisemos discutir naquele momento, marcando reunião dois dias após, quando então teríamos um posicionamento da pró-reitoria.

Durante toda a discussão, a calada também não se dispôs a nada. Mas...

No dia seguinte, a calada ligou para cada uma de nós e disse que era candidata a coordenadora. Fomos demitidas de duas em duas a cada semestre, inclusive as conteudistas... (e isso merece um causo a parte)


Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião

E, quase cinco anos depois, em tempos de pandemia e conversando quase sempre por internet, ao lembrar dos cursos presenciais fechados e das nossas demissões, ainda ouvi que fui eu que não soube negociar, que me expus demais como sectária em relação ao EaD (lembrando que na pandemia dou um monte de aulas síncronas e assíncronas), que sempre quis me mostrar esquerdopata, etc e tal... Ainda tentam me convencer que sou eu a culpada... Pior: é assistente social que fala... oh vida difícil de convivência com gente que não vê o mundo... só vê o umbigo...

E a tal da acumulação capitalista segue absolvida e absorvida como a língua do tamanduá que a todas as formigas engole.


Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada

E, nesse mesmo dia de pandemia, dentro de mim eu cantava... e já me preparava prá desligar a reunião... quando uma daquelas que se dispõe a capitã do mato do capitalismo, em sua felicidade diz altivamente: Enfim, parece que o preconceito contra estudantes de EaD vai acabar... afinal, daqui prá frente todos são e serão EaD.

Olhei pela fresta da janela entortada pelo tempo e vi a extensão de braquiária à frente. Há que seguir com pó-de-serra tentando cozinhar as batatas da tiririca, há de deixar que nasçam e cresçam as sementes trazidas pelos pássaros nessa terra de araras, há que se proteger as marias-sem-vergonha perto da cerca...

E como enfrentar os carcarás e as capitãs do mato? Que possibilidades se apresentam em tempos de felicidade em conseguirmos ser escravizadas? Oh desgraceira de capitalismo!

Prá sobreviver, só dançando no forró do João do Vale! Suando, cantando e cirandeando... e trazendo um monte de gente prá roda...



Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada. Imagem EBC.

 

 

 

 


8 comentários:

  1. Isso contempla o que penso. Eu estudante EAD percebo a desigualdade quando por não ter condições financeiras e também o acesso a educação superior pública "optei" pelo EAD.

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    1. que alegria sentir que as estudantes do EaD estão compreendendo o quanto fomos exploradas até no nosso direito à educação... é muito difícil a dor da consciência! obrigada mesmo

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  2. Respostas
    1. Angela querida, a nossa luta parece que não arrefece nunca... é todo dia, o dia inteiro! e a mercantilização da educação é uma que perdemos?

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  3. Parabéns pela reflexão, me lembro desse dia....minha sala foi a última turma do presencial, que tristeza foi perder nossos professores de excelência Física, Estela,Fernanda, Joana.....

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  4. simmmm, perdemos todas as professoras, as estudantes e a sociedade... triste!

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