Maria Amélia Mano
Arrumei casa. Guardei feijão na geladeira porque feijão é como gente, coisa estragadeira. Mas feijão não é sina, é fácil superar. Gente não. Gente corre, nada, voa, foge, se esconde e nem sempre sabe de quê ou de quem e pra onde. Mas gente também reza, benze e faz promessa na cozinha. Porque Deus, eu sei, está é aí, na cebolinha miudinha salpicada na salada com cuidado pelas mãos da minha mãe.
Lembrei do tempo em que misturávamos toalhas, escovas, estrelas, agostos, suspiros e escolhas, sem perceber. E éramos felizes. Mas perdi o dia em que a poesia escapuliu e a palavra virou brasa e a brasa, dança, salto que saiu da lenha da fogueira, e foi se apagando, se despedindo no chão. Porque Deus, eu sei, está é aí, nas cinzas e restos de labaredas de cotidianos postos na terra da horta pra florescer.
Quis me banhar, me perfumar. Eu, que temia olhos de enxame, me afastava de ferroada, ataque, dormências na pele. Segurava espirro, como pedia a avó, pra me apresentar serena, comedida e sem delírio. Sem nunca adivinhar a cor do vento, do vôo, do pouso. Porque Deus, eu sei, está é aí, no sabonete novo recém aberto como a inaugurar o corpo antigo.
Comprei flores só pra mim e coloquei vestido guardado pra momentos especiais e que por eu não notar a presença deles, pano desbotou. Ramo ficou em jarro arranjado, alaranjado, jaula de margaridas mortas. Mas que atraem abelhas vivas e um tanto de esperança. Porque Deus, eu sei, está é aí, na espera, no instante que se esfumaça, feito perfume no corredor, nuvem e a memória da última rosa recebida.
Me ajoelhei no oratório da bisavó. Eu, cheirosa feito puta que se perfuma quando padre solta água benta no altar. Eu, bichinho atropelado na estrada, querendo atravessar sem saber que já tinha morrido. Eu que só hoje, acordei pardais e comi laranjas melando mãos e boca. Porque Deus, eu sei, está é aí, nas laranjas que os pardais bicam e falam que são as melhores porque mais próximas do firmamento.
Deus está é aqui, na cozinha, no medo, na solidão, na perda, na reza, na alegria, no corpo descoberto, no prazer, nas histórias, ternuras e loucuras das mulheres que me fizeram, nos pardais que cantam e contam, segredam sumo de laranjas mágicas, desejos de rios subterrâneos, olhos d’água, suores, sabores. Fábulas entre meus seios.
Texto parte da coletânea em homenagem a Vinícius de Moraes: Horas Íntimas.
Organização: Rubem Penz
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