07 agosto 2023

ESPECIALISTA EM...

                                                     

 


                                                      ESPECIALISTA EM...

Precisava “descolar uma grana”, sem ter nem um tostão no bolso era impossível qualquer coisa. Trabalho estava escasso, pedir já nem conseguia mais. Roubar ... ia contra sua saúde: sem prática seria pego facilmente. Não dava. Já nem cogitava nos valores morais. Tinha fome, frio e uma urgência de um banho com caco de telha, tamanha era a sujeira do corpo. Sentou no meio fio da praça e imaginou um plano.

Do outro lado da rua estava um homem magro, sujo, sujo não, imundo, sentado no meio fio, cabisbaixo. Parecia faminto. Dia de entrega de quentinhas ao pessoal em situação de rua. A abordagem inicial era sempre uma incógnita. Oferecer sem que o outro se sentisse invadido, afrontado. Cruzou a rua, e chegou na praça. Caminhou diretamente e no campo visual do homem. Viu que era bem jovem, no máximo uns 20 anos, não parecia entorpecido por álcool ou droga. Abaixou-se levemente perguntando o nome e se desejava receber a refeição.

Do nada o plano de arrumar uma comida se materializou antes mesmo de ser concluído. Um rapaz, de voz tranqüila, ofereceu uma marmita com comida quente e uma garrafa de água. Deu tempo de dizer : sou Paulo e a comida é super bem vinda, e se tiver um trabalho será uma bênção. O rapaz sorriu e deu um endereço de um lugar com chuveiro e roupas limpas. Propôs  que depois de limpo estivesse no portão no final da tarde. Nem perguntei nada com a boca cheia do arroz e feijão da refeição. Apenas balancei a cabeça.

Embora raramente as ofertas de banho e roupa fossem aceitas, acreditava que o rapaz Paulo fosse aparecer no final do dia. E apareceu. O convite para ajudar na distribuição das refeições foi aceito e além de comer a sua refeição ficaram combinados que o trabalho voluntário  não seria a parte do Paulo. Ele seria pago para trabalhar distribuindo as refeições por um mês. Trabalho de 18:00 até 21:00 sete dias por semana que fome não tem final de semana.

Paulo entrou com garra, carregando pratos e garrafas, abastecendo os carros com as marmitas, distribuindo quentinhas. Foi-se fazendo amigo e ampliou o serviço lavando as panelas na cozinha industrial onde eram preparadas as refeições. Nunca pediu mais que os trocados que recebia pela distribuição. Com o tempo o que quebrava ele arrumava, o que carecia de reparos maiores ele dava um jeito e como um excelente faz tudo passou a ser contratado para serviços gerais na cozinha, em residências e ficou conhecido como especialista e qualquer coisa. Daí o “obrigaram” a estudar e foi a perdição... Sumiu! Um rapaz tão prendado!!!

                                                                                                 Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

                                                                                                                  Escreve às segundas feiras

ESPECIALISTA EM...

Precisava “descolar uma grana”, sem ter nem um tostão no bolso era impossível qualquer coisa. Trabalho estava escasso, pedir já nem conseguia mais. Roubar ... ia contra sua saúde: sem prática seria pego facilmente. Não dava. Já nem cogitava nos valores morais. Tinha fome, frio e uma urgência de um banho com caco de telha, tamanha era a sujeira do corpo. Sentou no meio fio da praça e imaginou um plano.

Do outro lado da rua estava um homem magro, sujo, sujo não, imundo, sentado no meio fio, cabisbaixo. Parecia faminto. Dia de entrega de quentinhas ao pessoal em situação de rua. A abordagem inicial era sempre uma incógnita. Oferecer sem que o outro se sentisse invadido, afrontado. Cruzou a rua, e chegou na praça. Caminhou diretamente e no campo visual do homem. Viu que era bem jovem, no máximo uns 20 anos, não parecia entorpecido por álcool ou droga. Abaixou-se levemente perguntando o nome e se desejava receber a refeição.

Do nada o plano de arrumar uma comida se materializou antes mesmo de ser concluído. Um rapaz, de voz tranqüila, ofereceu uma marmita com comida quente e uma garrafa de água. Deu tempo de dizer : sou Paulo e a comida é super bem vinda, e se tiver um trabalho será uma bênção. O rapaz sorriu e deu um endereço de um lugar com chuveiro e roupas limpas. Propôs  que depois de limpo estivesse no portão no final da tarde. Nem perguntei nada com a boca cheia do arroz e feijão da refeição. Apenas balancei a cabeça.

Embora raramente as ofertas de banho e roupa fossem aceitas, acreditava que o rapaz Paulo fosse aparecer no final do dia. E apareceu. O convite para ajudar na distribuição das refeições foi aceito e além de comer a sua refeição ficaram combinados que o trabalho voluntário  não seria a parte do Paulo. Ele seria pago para trabalhar distribuindo as refeições por um mês. Trabalho de 18:00 até 21:00 sete dias por semana que fome não tem final de semana.

Paulo entrou com garra, carregando pratos e garrafas, abastecendo os carros com as marmitas, distribuindo quentinhas. Foi-se fazendo amigo e ampliou o serviço lavando as panelas na cozinha industrial onde eram preparadas as refeições. Nunca pediu mais que os trocados que recebia pela distribuição. Com o tempo o que quebrava ele arrumava, o que carecia de reparos maiores ele dava um jeito e como um excelente faz tudo passou a ser contratado para serviços gerais na cozinha, em residências e ficou conhecido como especialista e qualquer coisa. Daí o “obrigaram” a estudar e foi a perdição... Sumiu! Um rapaz tão prendado!!!

                                                                                                 Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

                                                                                                                  Escreve às segundas feiras

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