ESPECIALISTA EM...
Precisava “descolar uma grana”, sem ter nem um tostão no
bolso era impossível qualquer coisa. Trabalho estava escasso, pedir já nem
conseguia mais. Roubar ... ia contra sua saúde: sem prática seria pego
facilmente. Não dava. Já nem cogitava nos valores morais. Tinha fome, frio e
uma urgência de um banho com caco de telha, tamanha era a sujeira do corpo. Sentou
no meio fio da praça e imaginou um plano.
Do outro lado da rua estava um homem magro, sujo, sujo não,
imundo, sentado no meio fio, cabisbaixo. Parecia faminto. Dia de entrega de
quentinhas ao pessoal em situação de rua. A abordagem inicial era sempre uma
incógnita. Oferecer sem que o outro se sentisse invadido, afrontado. Cruzou a
rua, e chegou na praça. Caminhou diretamente e no campo visual do homem. Viu que
era bem jovem, no máximo uns 20 anos, não parecia entorpecido por álcool ou
droga. Abaixou-se levemente perguntando o nome e se desejava receber a
refeição.
Do nada o plano de arrumar uma comida se materializou antes
mesmo de ser concluído. Um rapaz, de voz tranqüila, ofereceu uma marmita com
comida quente e uma garrafa de água. Deu tempo de dizer : sou Paulo e a comida
é super bem vinda, e se tiver um trabalho será uma bênção. O rapaz sorriu e deu
um endereço de um lugar com chuveiro e roupas limpas. Propôs que depois de limpo estivesse no portão no
final da tarde. Nem perguntei nada com a boca cheia do arroz e feijão da
refeição. Apenas balancei a cabeça.
Embora raramente as ofertas de banho e roupa fossem aceitas,
acreditava que o rapaz Paulo fosse aparecer no final do dia. E apareceu. O
convite para ajudar na distribuição das refeições foi aceito e além de comer a
sua refeição ficaram combinados que o trabalho voluntário não seria a parte do Paulo. Ele seria pago
para trabalhar distribuindo as refeições por um mês. Trabalho de 18:00 até
21:00 sete dias por semana que fome não tem final de semana.
Paulo entrou com garra, carregando pratos e garrafas, abastecendo
os carros com as marmitas, distribuindo quentinhas. Foi-se fazendo amigo e
ampliou o serviço lavando as panelas na cozinha industrial onde eram preparadas
as refeições. Nunca pediu mais que os trocados que recebia pela distribuição.
Com o tempo o que quebrava ele arrumava, o que carecia de reparos maiores ele
dava um jeito e como um excelente faz tudo passou a ser contratado para
serviços gerais na cozinha, em residências e ficou conhecido como especialista
e qualquer coisa. Daí o “obrigaram” a estudar e foi a perdição... Sumiu! Um
rapaz tão prendado!!!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas feiras
ESPECIALISTA EM...
Precisava “descolar uma grana”, sem ter nem um tostão no
bolso era impossível qualquer coisa. Trabalho estava escasso, pedir já nem
conseguia mais. Roubar ... ia contra sua saúde: sem prática seria pego
facilmente. Não dava. Já nem cogitava nos valores morais. Tinha fome, frio e
uma urgência de um banho com caco de telha, tamanha era a sujeira do corpo. Sentou
no meio fio da praça e imaginou um plano.
Do outro lado da rua estava um homem magro, sujo, sujo não,
imundo, sentado no meio fio, cabisbaixo. Parecia faminto. Dia de entrega de
quentinhas ao pessoal em situação de rua. A abordagem inicial era sempre uma
incógnita. Oferecer sem que o outro se sentisse invadido, afrontado. Cruzou a
rua, e chegou na praça. Caminhou diretamente e no campo visual do homem. Viu que
era bem jovem, no máximo uns 20 anos, não parecia entorpecido por álcool ou
droga. Abaixou-se levemente perguntando o nome e se desejava receber a
refeição.
Do nada o plano de arrumar uma comida se materializou antes
mesmo de ser concluído. Um rapaz, de voz tranqüila, ofereceu uma marmita com
comida quente e uma garrafa de água. Deu tempo de dizer : sou Paulo e a comida
é super bem vinda, e se tiver um trabalho será uma bênção. O rapaz sorriu e deu
um endereço de um lugar com chuveiro e roupas limpas. Propôs que depois de limpo estivesse no portão no
final da tarde. Nem perguntei nada com a boca cheia do arroz e feijão da
refeição. Apenas balancei a cabeça.
Embora raramente as ofertas de banho e roupa fossem aceitas,
acreditava que o rapaz Paulo fosse aparecer no final do dia. E apareceu. O
convite para ajudar na distribuição das refeições foi aceito e além de comer a
sua refeição ficaram combinados que o trabalho voluntário não seria a parte do Paulo. Ele seria pago
para trabalhar distribuindo as refeições por um mês. Trabalho de 18:00 até
21:00 sete dias por semana que fome não tem final de semana.
Paulo entrou com garra, carregando pratos e garrafas, abastecendo
os carros com as marmitas, distribuindo quentinhas. Foi-se fazendo amigo e
ampliou o serviço lavando as panelas na cozinha industrial onde eram preparadas
as refeições. Nunca pediu mais que os trocados que recebia pela distribuição.
Com o tempo o que quebrava ele arrumava, o que carecia de reparos maiores ele
dava um jeito e como um excelente faz tudo passou a ser contratado para
serviços gerais na cozinha, em residências e ficou conhecido como especialista
e qualquer coisa. Daí o “obrigaram” a estudar e foi a perdição... Sumiu! Um
rapaz tão prendado!!!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas feiras

Nenhum comentário:
Postar um comentário
O que tem a dizer sobre essa postagem?