14 agosto 2023

MAS TEVE FESTA NO FINAL

 




MAS TEVE FESTA NO FINAL

Convite para casamento com celebração religiosa num salão e festa depois da cerimônia.

Roupa alugada para ser madrinha, filho com roupa nova e sapato um número maior que o pé para poder aproveitar bem. (O  menino parecia tomar chá de bambu! Crescia  de perder roupa e sapatos a cada 3 meses!)

Nenhuma noção de quem seria o padrinho que formaria seu par, o pai do menino já havia desaparecido no horizonte da vida deles fazia quase uma década.

Unhas pintadas, cabelo arrumado, toda na elegância! Drama do momento: quem ficaria de olho no filho durante a cerimônia? Na última hora pediu um convite para a mãe.

Seu par, na entrada do salão, já estava no meio dos outros pares de padrinhos. Chegou meio esbaforida, a cerimonialista a acalmou: “Não está atrasada, tudo está bem, calma!” Foi então colocada ao lado do homem mais feio que já havia visto. Não era velho mas tinha uma postura de 90 anos!!!!! Usava o terno da cor certa dos padrinhos e a gravata era da cor do seu vestido e uma flor na lapela igual a da sua cintura. Quando ele sorriu, ela até sentiu medo. Ficou medonho, assustador. Engoliu em seco, tentou sorrir de volta, repreendeu a si mesma por estar desgostosa com tal par... Mas afinal, eram só padrinhos – apenas isto!

Durou um pouco o incômodo, mas a conversa do parceiro era amena e interessante e a primeira impressão passou.

A cerimônia religiosa se arrastou com um sermão  de recomendações óbvias e muitas citações repetidas. Seu olhar vagava buscando a mãe e o filho. Seu par reparou e questionou o motivo da preocupação. Não encontrar os seus estava começando a inquietar, O salão estava apinhado, mesas ocupadas, luzes baixas fora do lugar do casamento em si. E... nada de acabar a cerimônia. Agora era uma juíza a documentar, falar, ler uma ata ou o que fosse, com nomes e datas. Estava passando de inquietude para pânico. O par notou e segurou sua mão com carinho, sussurrou em seu ouvido alguma coisa que nem entendeu. Na verdade sentiu mais o calor do sussurro que ouviu as palavras, acalmou um pouco.

Por fim, os trâmites religiosos e legais findaram. Aí começaram as fotos. E nesta hora desejou muito circular para achar avó e neto. Ai, será que não ia ter festa neste casamento?  A hora oportuna para sair circulando  e achar onde estavam os seus...

Muito tempo depois, (para ela umas 20 horas depois), padrinhos, noivos, pais, avós e demais parentes foram liberados pelo fotógrafo. Saiu a procura... Na verdade nem demorou muito a achar a mesa onde haviam se sentado, ficava bem atrás de enorme arranjo floral. E quando suspirou de alívio percebeu que a mãe estava de mãos dadas com o homem feio, num cumprimento. Sentiu-se envergonhada, ao mesmo tempo confortável e um pouco divertida. Nem sabia o nome dele que sentou na mesma mesa e passou o resto da noite conversando e rindo, conquistando a amizade de   avó e neto, incluindo a madrinha na conversa ocasionalmente.

E aquele homem grande, calmo, feio, muito feio mesmo, começou a ser um amigo.

                                                                                                 Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

                                                                                                                  Escreve às segundas feiras

 

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