Maria Amélia Mano
Quatro almas cansadas na
madrugada.
Relampeja.
Último horário.
Motorista com RayBan falso
comprado no camelô entra no ônibus assobiando Perfídia.
Estela grávida entra em
seguida com bolsa Victor Hugo verdadeira dada pela patroa.
Dona de cabelo pintado acaju
entra com vela de citronela pra espantar mosquito da dengue.
Homem saído do manicômio entra
com Bíblia e sapato antiderrapante.
Gato vesgo se diz médium e mia
no poste da parada como se avisasse algo.
Ônibus arranca e começa viagem
sem volta.
Estela começa a sentir dor
intensa.
Desenho estranho de linha
escura no céu.
Motorista para no sinal.
Cão no semáforo com cara de quem
vende incenso ou arte de macramê suplica avisando.
Era o momento, o exato momento
de uma rotação da terra mais lenta.
Estela sente água entre as
pernas.
Estrela cadente ilumina a
faixa escura no céu e Estela faz pedido.
Naquele momento, todos já
sabem o que os animais já sabiam.
Motorista fura sinal.
Chove.
Catraca trava, janelas se
abrem, soam sinais de parada, buzina, freio, luz apaga, pane
Cheiro de citronela e
sangue.
Mundo se fez outro, diferente,
para o sonho de Estela acontecer.
Motorista passa a assobiar
Aleluia, Aleluia.
Homem do manicômio diz que é
Jesus voltando.
Na retina, o coração e o
ventre, perfurando o olhar e o olhar perfurando as coisas.
Então se acende a luz da lua.
Nasce Maria Aparecida da Silva
Souza no corredor do ônibus enguiçado no cruzamento.
Cinco almas encantadas na
madrugada.

Quando o não planejado acontece como um raio sem trovão! belíssimo relato.
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