O
humor com nossa própria vida, falar de autores clássicos no meio de episódios
cotidianos foram marcas da nossa aproximação... Desde o primeiro Congresso
Internacional de Direitos Humanos que nos encontramos passamos a conviver de
forma afetuosa e, acredito eu, admirando-nos!
Não
sabíamos quase nada da vida familiar um do outro, nunca almoçamos juntos, só
merendamos na mesma mesa em evento... mas o que nos unia mesmo era a
cumplicidade ideológica. E sempre fazendo piada sobre o mundo.
Em
um desses eventos da vida, acho que numa Conferência Magna que eu fiz, quando saí da mesa, nos
encontramos na banca de livros e ele, em minha direção, rindo, falou:
professora, o seu “desgraceira do capitalismo” é demais... nunca mais os
estudantes esquecem.
-
Os que gostam do capitalismo ou os que odeiam?
-
Todos!
E
ríamos de novo! Ele e eu concordávamos que haviam frases ou palavras que não
tinha a ver com lacração para nós, mas que estudantes e jornalistas gostavam,
isso gostavam. E viravam título de matéria de jornal...
Foi
dele também a ideia de Conferência Magma.. ele me disse que tinha umas magnas
que eram magma puro... que vinha feito lava de vulcão... e que pela reação do
teatro lotado a minha tinha sido magma... e lá ficamos nós falando sobre magma
e magna e fazendo trocadilhos... Agora só falo magma... aquela que sai do
centro da terra!, vêm de dentro... sabe-se lá onde... talvez da história? Ai
que falta faz esse guri não conversar mais comigo.
Fato
é que quando nos encontrávamos sempre falávamos das novas palavras e expressões
que tínhamos aprendido ou criado. E quando misturamos Rosa de Luxemburgo com
Guimarães Rosa então... ficou uma coisa mais ou menos assim... a vida embrulha
tudo e se não nos movimentamos não sabemos as cercas... que poderiam
desembrulhar! Ou pelo menos prender os sindicalistas que estão no apoio aos
trabalhadores para colocar na noira do capitalismo... mas, o que a vida quer
mesmo é coragem! Pronto, casamos os dois e ríamos!
E hoje sabendo que ele gostava da Legião Urbana,
fui lá no tempos perdidos e cantarolei enquanto escrevia e, pensei como seus
filhos querem e precisam saber do quanto o pai era um intelectual
fantasticamente humorado...
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder
Eu,
muito mais pobre em literatura que o Luiz e ele falando não sei quantas
línguas, eu acabava bebendo na fonte do seu conhecimento e na forma como se
expressava sobre os autores e autoras. Fazíamos exercícios de como falar fácil
de coisas complicadas tipo hegemonia, contra-hegemonia, poder totalitário...
traduzíamos por tijolo com furo, sem
furo, argamassa, cimento, areia, pedra, pedrisco... e ríamos... a inteligência dele
era realmente fascinante!
E,
embora eu soubesse do seu câncer e ele sabendo que eu sabia, nunca conversamos
sobre isso... a vida pulsante sempre tomava nossas conversas de dois minutos ou
de uma tarde inteira durante um evento de direitos humanos... encontrando no
corredor ou sentados em um trabalho em grupo. Quando eu sabia que ele
participaria do mesmo espaço, eu já ficava esperando suas tiradas científicas
com humor. Talvez pensava que...
Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
Sempre
que eu dava aula com o texto do Lefévre & Lefévre sobre o processo
saúde-doença e a não redução de alguém à sua doença eu citava o Luiz. O seu
viver era muito mais maior de grande que o diagnóstico e seus exames do
cérebro... Aliás, foi surpresa saber que estava mal fisicamente... prá mim ele
não tinha doença.
Dos
melhores aprendizados, foi em um evento da Pastoral dos Migrantes, que conheci um
dos conceitos mais significativos para definição de quem sou na academia...
Quando
chegamos em bando de feministas, já estavam lá os coloridos dos vestidos
venezuelanos, das saias paraguaias, dos turbantes haitianos, dos quimonos
japoneses, as tranças bolivianas, as túnicas africanas quando entrei no salão
da Igreja São Judas Tadeu. Lá “aceitavam” essas festas dos migrantes (nem todas
as igrejas gostam... algumas até rechaçam!). A nossa marca? Quase todas com
saias compridas e algumas com flores na cabeça.
Luiz
veio em nossa direção, já sorrindo e eu também... como diria a Sônia, a gente
ria de nada... só de ter em perspectiva que novas histórias iríamos contar da
nossa vida de pesquisadores... na “academia”, como diria Belchior!
-
Profa, a Dra. Mayck enviou esse livro prá você. Demorei prá devolver porque eu
quis ler antes.
-
Uai, livro com o nome do que ela está pesquisando?
-
Profa, ela já defendeu a dissertação e já publicou em livro!
-
Como assim? Ela nem me avisou que havia terminado a pesquisa, não me convidou
prá banca... não me avisou nada...
Minha
cara deve ter afetado o Luiz!
-
Ih, Profa, ela lhe enviou livro com dedicatória e tudo!
-
Cara, essa ex-mestranda e agora mestre que chamamos de doutora porque é do
direito eu peguei na mão dela prá terminar o projeto de pesquisa, depois
estudei junto a metodologia, ajudei a localizar a base de dados... pensa... não
sei quantas horas presenciais e outras tantas on line...
Na
dedicatória havia agradecimento à caneta, no livro eu não existia. Olhei as
referências bibliográficas, os agradecimentos e eu.... nada, nadica de nada!
Um
filme passou pela minha cabeça...
...
a menina pensadora que me agradeceu na apresentação do livro e que chamou um
professor da Universidade para a orelha depois de ter ficado comigo tantos
anos. Afirma sempre que eu a “acompanhei” no aprendizado. Ao agradecer falou da
admiração pelo conhecimento científico do orelhista;
...
da trabalhadora do HU que quase perde o mestrado e eu, dias a fio lhe apoiando
com a metodologia e a organização da dissertação e as regras da universidade
não me permitiam ser da banca. Com uma defesa grande do papel que tive junto ao
programa de mestrado, conseguiu me convidar para rever um dos artigos e daí
assinar em conjunto o mesmo;
...
da procuradora achadora que, tendo ir fazer o mestrado e com o vício do direito
de a tudo transformar em peça jurídica, em algumas muitas horas fiquei
orientando a metodologia de pesquisa, o comitê de ética... e essa eu só soube
que tinha já o título de mestre pelas fotos da viagem comemorativa;
...
da procuradora pouco achadora que
durante alguns vários dias discuti as fontes de dados e as principais
referências bibliográficas do tema, além de enviar textos e orientações
precisas de como descrever a metodologia de pesquisa documental e ela obter o
título de mestre e, quando nos encontramos falou que tinha se esquecido de
“avisar” que tinha terminado;
...
da doutoranda brasileira em país do velho mundo que, como quase nunca
encontrava o famoso orientador, passei a ler sua tese, sugerir as mudanças,
estudar junto a formatação daquele país e, quando me encontrou em evento
mundial falou que graças à ajuda que eu tinha feito, havia passado pela banca
com louvor...
...
de amigos da universidade que pesquisam temas que sou das referências e depois
comentam no café como foram as bancas... e eu nem convidada para assistir...
...
...
...
Ainda
estávamos trocando ideia se isso era ingratidão, se era termos aceitado ficar
na sombra, se era porque sendo nós dos direitos humanos e colocando-nos à
disposição das pesquisas, as pessoas não nos veem como intelectuais... que
diabos é isso de não nos considerarem como integrantes do mundo da academia que
pesquisa?
Exatamente
quando estávamos aprofundando esse menos-valor com que somos tratados e ele me
falando do tanto de dissertações e teses que leu inteiras antes de serem
entregues, capítulo a capítulo, das traduções de textos... já estávamos quase
começando a rir da nossa desgraceira quando a Profa. Dra. dos Direitos Humanos
entrou no evento e veio em nossa direção. E eu, com meu espírito
descontrolado...
-
Oi, Profa. estamos aqui conversando... porque nós nunca somos chamados prás
bancas, prá sermos co-orientadores... prá assinar os artigos que a gente ajuda
tanto no conteúdo quanto na formatação?
-
Não sei, gente... como assim?
(aí
passamos a citar situações e nomes de mestrandos e especializandos... prá ver
se nos fazíamos entender...)
A
Profa. Dra. respondeu:
-
É que precisamos valorizar os programas de mestrado e doutorado... então um
programa convida os professores de outro programa.
Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
...
Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
Resposta
límpida! Todo os curta-metragens que havíamos compartilhado, as pequenas dores
cumpliciadas tinham a explicação lógica da racionalidade. O grupo que estávamos
se desfez e ficamos ali, nós dois, calados. Depois do instante que se sente
século...
Olhamo-nos.
Luiz
riu.
-
Professora, aqui, neste território nós somos pesquisadores! na Universidade, nós somos lúmpen academia!
E
aí, a Rosane nos nomina ao microfone, agradecendo apoiadores da Pastoral dos
Migrantes e completa dizendo “nossos amigos pesquisadores”!
Luiz
se encantou um dia desses e eu estou aqui, pensando... onde será que estão outros
lúmpens academia preu me juntar? Oh, árvore frondosa feito baobá, me indica aí!
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio…
Estela
Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida,
publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada. Hoje, com
aprovação de texto e ajuda prá música, contei com a Bruna, esposa do querido
Luiz Rosado que me brindou com a convivência em
eventos de direitos humanos.

Desgraceira mesmo, Estela, mas sabe de uma coisa: faz um bom tempo que eu vejo que a academia vive, quase sempre, quase toda, voltada para manutenção de si mesma. Nada contra, mas poderiam ao menos assumir, parar com essa conversa de que há, quando não há, compromisso com o saber ou com a diversidade de saberes e fontes de saberes. Não há, quase nunca, nem mesmo entre aqueles que se dizem freireanos, quase nunca. Uma lastima, mas já estou bem em paz com isso também.
ResponderExcluircompa amigo, você tem alma evoluída... eu, ao contrário ainda sinto dor. E isso é com tudo quanto é linha ideológica... até com os mais próximos, né?
ExcluirEstela, esta emocionante e emocionada narrativa me remeteu à época em que acreditava na academia como a grande catalisadora da sociedade e de suas contradições, como àquela cujo conhecimento é tão poderoso que seria capaz de entender os sujeitos e, a partir dos anseios destes, guiar para nova sociedade. Foi-se. Dentro desta desgraceira de capitalismo, tendo também a acomodar (e não me orgulho). Sou um lúmpen que viaja, isso é o afago concedido pelo capital.
ResponderExcluirestou à procura de afagos, compa! está feia a coisa da desilusão nas Universidades... onde ancorar tanta sede de produzir conhecimento e socializar?
Excluir