18 junho 2023

O SUS QUE NASCEU TAMBÉM NA COZINHA DA CAPELA

 

 

Olga chegou em Glória de Dourados em 1972 já congregada nas Irmãs de São José, tendo passado antes por Vicentina. O motivo da vinda do Rio Grande do Sul era apoiar a evangelização nas paróquias que tinha poucos padres.

Era um tempo de ditadura que ninguém falava disso. Se quisesse ninguém ia nem ficar sabendo ou perceberia. Veio com o magistério e, trabalhando como professora foi fazer o curso de licenciatura em estudos sociais. Conta ela que juntava tudo – a missão da Congregação, a vida de Professora e a licenciatura – e realizava os encontros de evangelização.

No mesmo tempo, 1974 chegou à família do Carlos Ferrari. Vinham do interior de São Paulo onde eram meeiros e aqui puderam adquirir uma terra prá família trabalhar. Ele tinha 18 anos, coração e cabelos vermelhos. Nunca tinha estudado nada de socialismo, comunismo... mas lia a Bíblia e interpretava com a vida. 

Somos gente nova vivendo a união
Somos povo semente de uma nova nação ê, ê
Somos gente nova vivendo o amor
Somos comunidade, povo do senhor, ê, ê

Parecia que a coisa toda conspirava prá formar gente pensante na Igreja Católica e, com a fundação da Comissão Pastoral da Terra – CPT  a coisa toda desencadeou que a evangelização também falava com e para os trabalhadores rurais.  Como diz Olga:

 Tínhamos um padre amigo nosso de Caxias do Sul que foi para Goiânia que assumiu logo no começo do CPT como secretário executivo...  vinha nos visitar falando, ajudando a refletir a realidade que além das celebrações da missa precisávamos avançar mais junto com os trabalhadores. Começamos a fazer círculos bíblicos refletindo bíblia e a vida do povo. Nós motivávamos nas comunidades de eles fizessem durante a semana esse círculo bíblico. Por um tempo preparávamos juntos e com outras pessoas leigas que também conhecia essa realidade.

Vou convidar os meus irmãos trabalhadores
Operários, lavradores, biscateiros e outros mais
E juntos vamos celebrar a confiança
Nossa luta na esperança de ter terra, pão e paz, ê, ê

— Aquela forma do governo de organizar os sítios por linhas era bom prá mobilizar. A gente saía de bicicleta e logo encontrava os companheiros e convidava prá celebração, pros círculos bíblicos... E as pessoas confiavam umas nas outras. Eu era um piá, novo de tudo e, então fazia muito esse trabalho de ir nas casas passar os recados. Depois da missa, das celebrações então a gente ia prá cozinha e a Olga fazia um chá de alguma coisa que alguém trazia ou mesmo plantado por ali mesmo e aí a gente planejava as próximas ações...

A ideia da saúde como direito tinha presença constante nas rodas com muitos jovens e praticamente todos eram agricultores familiares. Melhorar a vida na roça era também trocar ensinamentos dos cuidados em saúde, como diz o Ferrari:

— As mulheres cuidavam delas e dos homens. Então, uma ia ensinando a outra. Os chás, emplastos, imobilizações - essas os homens até ajudavam -, parto, dor na barriga, dor na coluna... tudo tinha uma troca entre as mulheres, mas faltava mesmo era atendimento para quando precisava de alguma coisa na cidade.

— Não havia nenhuma organização então começamos a pensar que a organização dos sindicatos dos agricultores familiar e pequenos agricultores. Era uma possibilidade de começar a conversar sobre os problemas que eles enfrentavam e como poder melhorar a vida na roça. Aí trouxemos então estudos, buscando apoio da Comissão da Pastoral da Terra, também da experiência da Cidade de São Marcos onde meu pai foi o fundador do sindicato dos trabalhadores rurais daquele município. (Olga)

— Eu lembro que uma vez, logo que começamos a falar de Sindicato, a Olga trouxe uma cartilha que se chamava “O ABC do Sindicato” e lá tinha que o sindicato tem que lutar pela saúde. Foi logo depois da missa que o Padre veio e a Igreja estava cheia que falaram que era para escolher 9 pessoas para compor a chapa do Sindicato. Várias pessoas começaram a falar meu nome, mas eu fiquei foi com vergonha porque não tinha sido conversado em casa e era o pai que decidia. (Ferrari)

— Eu buscava subsídio em tudo quanto é lugar. Precisava apoiar o povo na organização e o sindicato era uma importante ferramenta. Aí surgiu o sindicato dos trabalhadores rurais com o Carlos Ferrari como primeiro presidente. (Olga)

Vamos chamar Oneide, Rosa, Ana e Maria
A mulher que noite e dia luta e faz nascer o amor
E reunidas no altar da liberdade
Vamos cantar de verdade, vamos pisar sobre a dor, ê, ê

Em Glória de Dourados a realidade dos agricultores é que eles estavam organizados nas comunidades pequenas da igreja que a gente chama de capelas porém, na luta por direitos, por melhorias não havia um trabalho... então juntar as organizações das capelas com as discussões do sindicato foi uma forma de dar força para a organização dos trabalhadores.

O atendimento ambulatorial era no FUNRURAL, instituição criada em 1963, funcionante durante todo o período ditatorial militar e se destinava à saúde, assistência e previdência dos trabalhadores rurais - era só o ambulatorial e funcionava no Sindicato Patronal... então, os trabalhadores tinham dificuldades de atendimento lá... e, quando se necessitava de hospital era mesmo na Maternidade da Mãe Pobre. A marca de “mãe pobre” no nome do hospital já denotava a forma de entender a saúde, ou seja, era coisa de dizer que eram os pobres e era na base da caridade.

— Muita gente pensava na saúde como atendimento médico e mais de urgência mesmo... mas a gente que estava ali estudando, discutindo, organizando os trabalhadores, a gente sabia que era mais que isso... era cuidar da vida da gente de forma mais completa... e, o mais importante era manter a alimentação saudável. Isso era uma conversa no cotidiano da gente. Comida é vida e, por isso que a gente lutou e luta tanto contra os agrotóxicos. Antes não tinha tanto e todo mundo plantava quase tudo que comia. E era com saúde na comida. (Ferrari)

Vou convidar a criançada e a juventude
Tocadores, me ajudem, vamos cantar por aí
O nosso canto vai encher todo o país
Velho vai dançar feliz, quem chorou vai ter que rir, ê, ê

O tempo corria mais devagar e a ditadura seguia matando gentes... Mas como registrou aquele povo ali primeiro cuidava-se da terra prá depois colocar as sementes, uma a uma. Plantavam-se sementes de grandes árvores, de médias árvores, sazonais rasteiras, floreiras e trepadeiras... Ali, nas pedaladas de bicicleta, nas leituras do Jesus libertador semeou-se o SUS... Será que é por isso que no artigo 196 consagrou-se a universalidade e registrou que esse nosso Sistema tem que começar pela Promoção, Proteção e depois a Recuperação da saúde?

É possível que o movimento dos trabalhadores rurais não tenha sabido falar as palavras chiques feito integralidade, equidade, descentralização... mas plantaram canteiros que os legisladores e acadêmicos tiveram que aprender a colher!


Estela Márcia Rondina Scandola

60 anos de direito aos afetos e dengos

                                                                               

Música: Baião das Comunidades- Zé Vicente

 

2 comentários:

  1. Realmente, Estela, a história ficou linda. Essa memórias são muito importantes para entender e explicar de onde veio o SUS, porque tem gente, hoje em dia, achando que ele brotou do chão. Estão esquecendo das lutas, das transformações, da critica que existia ao que veio antes. Que venham mais histórias.

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    Respostas
    1. esse SUS muito pouca gente conta.... preferem as referências bibliográficas que não falam do SUS nesse chão!

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