RENDAMAR - Maria Amélia Medeiros Mano
Para Atinha e Benedita
Com a agulha nas mãos, Ritinha tece a renda, o mundo em flores de linhas brancas e enfeita toda a pequena cidade de Água Santa. Tece as rosas que margeiam o decote do vestido da Bianca, noiva do Malaquias da farmácia. O babado florido da Angélica que fez a primeira comunhão. Tece as flores que enfeitam as cortinas da casa da dona Ondina, as toalhas de rosto da dona Esmeralda e as de mesa, também... O cueiro do pequeno Humberto, o terceiro menino da Berenice dos correios que guarda as camisinhas rosa de florzinha de crochê para a menina que, um dia, virá. Ela sonha todas as noites com a filhinha que ainda não teve. Tem o enxoval da Tamires e a gola do vestido da Carolina, menina que sai para outra cidade próxima para estudar, para ser professora. Ah, e tem os paninhos da igreja! O padre Sérgio não abre mão do "biquinho" na cambraia branca que limpa o cálice de vinho, na missa.
E as agulhas não param! Serpenteiam, enquanto caminha sem olhar pra nada. Ninguém sabe como ela não cai, como não tropeça, como não bate nas paredes... Acham que os passos já conhecem de cor as falhas nas calçadas, as pedras desiguais da rua de paralelepípedos, a parte mais densa da grama, as raízes das árvores que saem dos canteiros da praça e avançam destruindo o chão. Sim, só assim. Porque, diz ela mesmo, enxerga pouco. Ora espicha, ora espreme os pequeninos olhos por detrás dos óculos na ponta do nariz para ver melhor. E assim vive uma vida inteira que alguns teimam em estimar: 85, 90 anos. Tem o que é de verdade e o que é de mentira, que está no papel. E de verdade, ela tem poucas lembranças. Lembra de uma seca grande quando tinha sete anos e de um cometa que passou quando tinha 17 ou 27, seria? Lembra de quando o Monsenhor veio da capital em uma festa de Nossa Senhora do Socorro, padroeira da cidade. E ainda teve o crime da cerca dos irmãos Arruda. Brigavam por palmos a mais ou a menos no terreno. Uma cerca que ia e vinha, e um destruía e o outro construía. Ninguém sabia quem tinha razão, mas o tal do Valter, o mais velho, deu com o cabo da enxada na cabeça do mais novo, o Josias. O Valter sumiu. O crime abalou a cidade. Saiu até no jornal da capital. As pessoas lembravam de Caim e Abel e o povo, depois da missa de 7º dia, saiu em procissão pela paz, contra a violência. A mãe dos irmãos, dona Elvira, morreu de desgosto. Ritinha saiu na procissão já fazendo crochê. E, olha, isso fazia um tempo danado!
Não adiantava fazer contas. Ninguém podia saber a idade da Ritinha, nem ela mesma. Só se sabia que era o dia 16 de abril e sempre ventava. E Ritinha comprava os croquetes da dona Sinhá pra festejar. Passava de manhãzinha, atravessando a praça e entortando o corpo franzino feito galho seco no meio do vento que sempre fazia em abril. Ninguém sabia como o vento não levava Ritinha, tão pequena e tão magrinha! Ela devia passar por alguma falha do vento. Devia conhecer, tal qual conhecia as pedras do chão, um corredor de calmaria entre a ventania. Só assim se explicava. Só assim. E a festa de aniversário era coisa pouca, mas ganhava muitos presentes. Gostava de sabonete perfumado, talco daqueles que vem com pompom para passar no rosto. Ritinha era bem cheirosa e, como pouco conseguia ser ver ao espelho, era comum ter o rosto branco de talco. Ou uma parte do rosto, ou só o pescoço. As florzinhas e os biquinhos que fazia, bem como os paninhos e toalhas que pegava, eram impregnados pelo seu perfume. Tudo era fininho e cheirosinho como ela era.
Também era pontual nas entregas e não errava na receita, não perdia um ponto, nunca! E quando não gostava de uma cor, de um ponto, de um pano, Ritinha ficava quieta, mas tratava de mudar por conta própria. Fazia do seu jeito e ninguém reclamava porque saia mais bonito mesmo. Uma vez, uma moça de fora que ia se casar com o Antônio, filho do Esmeraldo da padaria, botou defeito na colcha de casal em que Ritinha havia feito o acabamento em crochê. Era pra ser umas rosas largas azul-escuras e Ritinha fez uns botõezinhos estreitos verde-claros, parecia um matinho. Dizem que foi aí que começaram os problemas na família. O rapaz já não era muito de compromisso e a moça exigente, deu no que deu. Não durou cinco anos e ele deixava da tal moça por uma outra, menos "cheia". Diz que a Ritinha sabia das estripulias do rapaz, que até mandou fazer uma rosinha de crochê em um lencinho com as iniciais dele e da "outra"... Mas da Ritinha não saía um comentário, uma fofoca. Sabe-se que ela conhecia todos e os segredos de muitos, mas esses, ah, esses segredos! Só o vento que ela atravessava é que sabia!
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