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28 novembro 2013

Entre pinguins e a Educação Popular

    A educação popular tem essa habilidade de fazer encontrarmos algumas coisas que estavam esquecidas. Comecei a frequentar a comunidade e ver os artesanatos de biscuits das artesãs da Barra. E eu comecei a lembrar de quando aprendi a fazer algumas florezinhas de biscuit com a minha tia para decorar as casquinhas de páscoa que eram vendidas depois para ajudar a APAE a juntar fundos.
    Certo dia tomei coragem e pedi um pouco daquela massinha para tentar fazer um artesanato com as artesãs. E vim escondida em casa tentar fazer modelar algumas coisas e surgiram pinguins! Pinguins de capuz e tomando chimarrão. 

Meus pinguins
     O mais legal disso foi sermos convidados para o aniversário da Suzana, a líder do grupo das artesãs da Barra, e compramos uma cuia de presente para ela e eu coloquei meu pinguim dentro da cuia como um presente também. Quando ela abriu e viu a cuia achou legal, mas quando encontrou o pinguim deu grito de alegria: “Ah! Olha que lindo o pinguim da Mayara” e veio me dar um abraço.

Festa de aniversário da Suzana. Foto: Arnildo Dutra de Miranda Jr
    Nesse dia tinha levado minha mãe para conhecer as artesãs. E aí descobri da onde surgiram os pinguins com risos da minha mãe, da Suzana e dos meus colegas da Liga de Educação em Saúde, ela lembrou que eu havia quando pequena modelado 150 Pokémons (aqueles do desenho animado).  E que eu adorava fazer isso quando criança.

Eu e os 150 Pokémons
    É fantástico como a EP nos permite essa redescoberta. Ou os novos aprendizados como a Jéssica uma extensionista que começou a frequentar o grupo de artesanato da Barra e ensinou durante o trajeto do centro até a Barra como fazer um leão-marinho de biscuit. Claro que os nossos leões-marinhos pareciam qualquer coisa, menos um leão-marinho. E foi muito interessante percebermos como não conseguimos fazer um leão-marinho como o da Suzi, e podermos aprender, assim como elas na última reunião puderam aprender sobre tireoide.
    E assim seguimos, entre pinguins, biscuit, e educação popular. Porque são nos detalhes que se faz a ensinagem.

Voam abraços,
Mayara Floss



23 novembro 2013

A colcha de retalhos


    Chega um momento da faculdade que você percebe quase todos ao seu redor infelizes, tristes com o curso, com o ser médico, abatidos porque estão internados, porque são pacientes. Gira um certo descontentamento por todos os motivos desde a dor até a carga horária. A felicidade é estar no lugar certo e poder ser sem fazer o tempo inteiro. E foi nessa felicidade original que cada um constrói para si que decidi fazer da medicina meu autoconhecimento, não que eu consiga fazer isso o tempo inteiro, mas é a minha tentativa.

    Caso contrário a vida é muito curta para ser pequena. Sempre vai faltar alguma coisa, o que importa é saber se isso, mesmo depois de suprir essa falta, irá me fazer plena ou deixar-me mais vazia. Eu preciso transbordar. Hoje, a Liga de Educação em Saúde estava lá junto com a comunidade para o anúncio da implementação da Estratégia de Saúde da Família na Comunidade da Barra.

    Estava um dia de sol, mas de vento gelado, como são a maioria dos dias da Barra. Chegamos (eu e a Clarissa) cedo e encontramos o enfermeiro Beto e sua esposa Rosane no CTG – Xirú da comunidade. Apesar de dias de cansaço e de certo desanimo, porque somos todos humanos, sempre tem aquela força e energia para encontrar pessoas especiais que tem um sentido muito mais profundo do que apenas ter, mas de fazer diferente. Sair do mundo de concreto e diretrizes médicas é revigorante. Já chegamos e começamos a organizar o espaço, varrer todo o salão central, carregar os bancos, organizar o local para a recepção da Secretaria de Saúde e dos representantes da Estratégia de Saúde da Família.
Foto: Clarissa Côrrea
     Sabe, mesmo que a ciência queira subdividir as patologias, sistematizar o corpo humano, o ser humano não nasceu com manual de instruções. A comunidade não tem manual de instruções e é esse eterno desvendar é que faz o tempo valer a pena. A parte mais marcante da reunião foi certamente a Suzi (líder dos Grupos de Artesã da Barra) perguntando e cobrando sobre a Construção do Conselho Local de Saúde e saber que essa movimentação que começamos com conversas sobre o Sistema Único de Saúde e a tentativa de construção do Conselho Local de Saúde influenciaram na decisão da implementação da Estratégia de Saúde da Família na Barra.
Foto: Clarissa Côrrea
     Essa vontade de ser mais de cada um é o que faz não sentir medo de ser feliz, de poder estar completo junto com os outros, de compreender que mesmo completamente diferentes e originais, somos muito iguais, independente de formação, faculdade, graduação, MBA, mestrado, doutorado, alfabetização. Não é essa educação de níveis que nos faz saber mais ou menos, é perceber as nossa pluralidade humana. No final da reunião me perguntaram (o pessoal da prefeitura) se eu morava na comunidade, eu disse que não, mas é absolutamente incrível perceber que eu faço parte dela, mesmo morando a 20km de distância. Afinal, todos fazemos, mas nem sempre nos damos conta.
    Fazemos parte da mesma linha que costuram os pedaços de nós em uma colcha infinita de retalhos. E devemos parar de deixar a felicidade para a próxima parada, vou ser feliz depois que o ano letivo terminar, depois que eu me formar, depois que eu comprar um carro, depois que eu tiver dinheiro, depois que meus filhos crescerem, depois que eu me aposentar. Deixamos a vida para a próxima estação, enquanto ela se desdobra, como se desdobram as ondas da lagoa na Barra, como se enrola a linha que a artesã costura para formar nossa colcha de retalhos. A felicidade está na Barra, na medicina e por onde os meus pés me levarem, sem paradas ou estações. 

Reunião para conversar sobre a tireoide depois da reunião com a secretaria, nós segurando as colchas de retalho que servirão para a capa do Livro de vivências da Liga de Educação em Saúde.
Voam abraços,

Mayara Floss

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