Bloc de Educação Popular em Saúde com foco em crônicas, contos e poesias. Reflete o dia a dia de trabalhadores do Sistema Único de Saúde e Saúde Pública e Coletiva. (cotidiano, saúdes, vidas, poéticas, sensibilidades, ternuras, raivas, gritos)
15 setembro 2025
LUZES
04 agosto 2025
VISÃO MAIS CLARA
VISÃO MAIS CLARA
Por nada deste mundo ia dizer que
melhor era nem ter árvore. Amava as árvores, amava sua mangueira que nem dava
frutas doces e nunca dava frutas sem bicho ... mas era a árvore do seu quintal!
Acontece que os galhos cresceram e tomaram a
frente da janela de tal modo que a vista era apenas de folhas e galhos, sem por
do sol, sem luz. Até estava sombreando as placas solares que foram pagas com tanto
esforço, a produção já diminuíra consideravelmente. Por fim deu de quebrar as telhas e provocar
goteiras que deixavam tudo mofado. Dolorosamente era preciso podar.
Quem vai subir nesta árvore alta e frondosa com uma serra? Como fazer? Claro
que uma boa alma arrumou quem trabalhasse com isto e deu a solução. A mulher
dei “pitaco”: melhor chamar a firma que podou o abacateiro. Mas na hora do “vamos
ver”, ganhou a boa alma que deu a ideia do grupo experiente em poda.
Tem que alugar uma caçamba pra
colocar os galhos retirados! Tem que ter a serra leve e o rapaz magrinho é quem
vai subir! O forte é responsável pelas cordas de segurança! Contrato feito,
direto ao serviço!
Pra começar a sugestão do lugar de colocar a
caçamba, dada pelo dono da mangueira, não foi aceita, melhor mais acima.
Depois, hora do corte real, o responsável pela amarração do galho não mediu
exatamente o ponto de equiíbrio e o galha caiu sobre a fiação. O outro galho
era grande mais e tombou pesadamente no meio da rua, sorte que não pegou ninguém.
Sem danos maiores, prossegue a poda e o encarregado da orientação de onde
cortar cai da escada. Nesta hora a dona da mangueira já tinha caído fora que o
nervosismo estava-lhe subindo a pressão. E quem contratou o serviço meio
arrependido de não ter escutado a mulher, ficou de dedos cruzados na torcida de
nenhum dano físico nos 3 marmanjos podadores trapalhões.
Mas o resultado ficou claro, aberto e com uma
vista legal, mesmo depois dos prédios que aparecem na frente da janela, E será bonito até outros
mais aparecerem tampando toda vista da enseada... Mas, é apreciar agora!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas
feiras
14 julho 2025
DIAS DE TESTE DE PACIÊNCIA OU A PACIÊNCIA FOI PELO RALO
DIAS DE TESTE DE PACIÊNCIA
OU A PACIÊNCIA FOI PELO RALO
Marco foi assoviando para o
trabalho, num humor leve e tranquilo. No ponto do ônibus deu de cara com um
colega dos tempos de escola. Não lembrava o nome, mas não quis chamar pelo
apelido e disse apenas um oi! O outro fechou a cara e não responde. Marco deu
uns passo e voltou a assoviar baixinho. O ex-colega amarrou mais a cara: Está
feliz por qual motivo? Marco ficou com a boca em bico mas sem emitir som algum,
surpreso. Sorriu a seguir e ficou
realmente feliz de ver o transporte chegar! Sabe como é, pegar o ônibus logo
ao chegar no ponto é sorte! Bem... ou
azar se o companheiro de viagem era um emburrado.
Quase meia hora de pois, sem
poder nem respirar fundo, precisava pedir passagem para não perder o ponto de
descer. O ex colega na frente, fechando a passagem.. e fingindo não escutar o “dá licença”! Depois de repetir algumas vezes começou a se espremer no pequeno
vão empurrando pra sair. Já não sentia vontade de assoviar... E numa freada, mais brusca parecia um parto, esmigalhou-se e passou na pequena fenda entre os
corpos. Gritou que ia saltar e o motorista não escutou e seguiu. Desceu no
ponto depois da rua do trabalho e teve que caminhar bem rapidamente pra “bater
o ponto" sem atraso. Chegando ofegante ao setor, foi barrado pois estava sem a
camisa de trabalho. Até provar que sim, estava vestido e apenas usava uma blusa
de manga longa por cima... o chefe embarreirou e fez cara feia o suficiente
para que todo setor prestasse atenção nele.
Respirou fundo e seguiu seu dia. Intervalo de
almoço oficialmente era uma pausa, mas por conta dos minutos perdidos na
entrada o chefe pediu servicinho extra. Desta vez respirou fundo muitas vezes,
tinha comido uma fruta cedinho e queria comer sua marmita, mas isto só podia
ser feito no refeitório. Ficou sem almoço. Seu sorriso costumeiro e seu
assovia característico desaparecera. Uma colega desatenta derramou café na sua
prancha de trabalho e sujou seu desenho já em fase final. Chegou a iniciar um
impropério mas viu a coitada tão desolada que acabou dizendo que era nada. Mas claro
que ficou mais 2 horas para corrigir o desenho. Na volta para casa o ônibus
demorou tanto que resolveu andar até a estação de trem e seguir para fazer
conexão com o metro e andar uns 20 minutos até em casa.
Desceu do metro já noite escura e
iniciou-se uma chuvinha rala e fria. Pensou que a bronca da manhã do uniforme
havia valido a pena, ao menos estava menos exposto ao vento frio. Até voltou a
assoviar enquanto cruzava a venida para chegar em casa... mas um motorista
desatento ultrapassou o sinal em velocidade e atropelou o Marcos. Sorte não ter ferido gravemente. Num
teste de paciência ficou a noite toda sentado no pronto socorro esperando ser
examinado. Pela manhã saiu sujo, de braço engessado e sem nenhum bico nos
lábios formando um assovio. Nem passou em casa. Avisou que não ia e seguiu para
o trabalho pra apresentar o desenho ao chefe antes que o chefe perdesse a
paciência. Depois... quem sabe o dispensavam par tirar o dia!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
escreve às segundas feiras
07 julho 2025
QUAL O MOTIVO DA SURPRESA?
?
QUAL O MOTIVO DA SURPRESA?
Camila chegou de mansinho, magra, esfaimada, um tanto abatida
e cabisbaixa. Parecia estar implorando para que a aceitassem. Comovia, seu olhar
triste e desamparado. Primeiro aceitou água e comida, ficou encostada no
batente da porta sem entrar. Muda, com grandes olhos desolados, aparentando um
medo que só era menor que sua fome. Claro que mainha ficou rendida a esta situação. E Camila foi
conquistando aos poucos os corações e entrando nos hábitos da casa.
Começou a engordar, a danadinha, e ficar bonita, sestrosa e
a se manifestar. Mainha se encantou cada dia mais.
Um belo dia sumiu a Camila, Todo mundo perturbado com a
situação. Dois dias sumida, sem um ruidinho sequer!
Mais dois dias e lá veio Camila caminhando rebolando e
movendo sinuosamente a cauda... com uma coisa na boca. Passou direto por todos
e foi para cozinha. Saiu e voltou com outra coisa que conseguimos ver melhor. Duas
gatinhas fofinhas e de olhinhos ainda fechados!
Mainha colocou o nome de uma Cefaléia e de outra Cibalena. Quem
conhece a cabeça de mainha... não se surpreende com sua capacidade de nomear
coisas, pessoas e gatos.
Quando criticada, mainha soltou logo que o nome da cachorra
da vizinha era Ipecacuanha, então...
Deixa pra lá! Sabe-se
lá que outros nomes e apelidos podem surgir de uma cabeça
criativa? Talvez Apolinária? Zulca? Briônia? Afinal, mainha lia bulas, Vade Mécum, Matéria Médica de
Homeopatia, livros indianos, maias... e gostava do som do nome e pronto!
Maria Lúcia Futuro
Mühlbauer
Escreve às segundas
feiras
10 março 2025
VIAGEM
VIAGEM
Viajei, viajei sim! E foi
realmente daquelas viagens malucas, que só a cabeça de um ser estranho forja!
Recebi de uma prima um vídeo de um passeio em Bonito, filmado por drone do
alto, o pessoal sentado em boias e descendo um rio rodando pela correnteza.
Beleza, natureza, correnteza... e visto tudo
assim do alto... acionou algum gatilho na imaginação e vi o rio como vasos
sanguíneos da terra com seus glóbulos a girar na corrente da vida do planeta,
com as micro pessoas como as mitocôndrias, com suas capacidades de criar,
mobilizar e transformas energia! Muito loucos estes pensamentos, mas foram
reveladores dos sentimentos guardados em algum canto do meu empoeirado e
desarrumado cérebro (me prometi catalogar e organizar estes departamentos de
informações que aparecem pela vida afora... embora duvide ser capaz disto,
mas...).
Então, entrei nesta viagem imaginando como
seriam as trocas de oxigênio destas células que rodavam nas boias, seria a
sensação de pertencimento (serem realmente natureza) que oxigenaria o entorno e
cada uma receberia sua “cota de clorofila?
Maria Lúcia Futuro
Mühlbauer
03 março 2025
E CHEGOU... CARNAVAL... E ELA NÃO...
ECHEGOU...CARNAVAL...E ELA NÃO
A verdade era que desfilar numa
Escola de Samba pela primeira vez era uma emoção indescritível, diria mesmo
viciante! Calor, medo de errar, ansiedade de desempenho impecável, insegurança
de quem não é profissional do samba... tudo junto e misturado e uma grande
alegria de fazer parte do conjunto, do brilho do enredo, de ter as batidas da
“bateria” no corpo... realmente indescritível.
Já havia participado da euforia na
arquibancada com uns amigos, os mesmo que agora me colocaram no meio do
desfile. Sambar, pular e brincar carnaval nos Blocos sempre foi um momento
feliz na minha vida carnavalesca. Mas, estar nos ensaios, desfilar estava sendo
uma coisa bem maior, misturando alegria e responsabilidade. Podem rir: o que
uma figura “figurante”, dentro de uma Ala, faria de diferença? Mas para mim era
o compromisso de diversão, arte e capacidade de estar dentro da coreografia sem
errar nem atrapalhar os companheiros.
Mas por fim, deixei a cabeça de
lado, e literalmente entrei na “Escola”, adereços da Ala, coreografia no
sangue, ritmo na alma. Cheguei à Apoteose! Literalmente.
O abraço e os sacolejos entre os
amigos, o beijo na boca da colega do lado (susto!) e o coração aos pulos
explodindo de alegria: quase infarto! Só não sei se serei capaz de repetir o
feito!
Sentei no meio fio: sem fôlego,
sem pernas, lavada em suor, emocionada, feliz e sentindo que sou uma
sobrevivente! Valeu, bastou, celebrou minha estreia e encerrou minha carreira
aos 75 anos.
“Doravante só nos degraus da
arquibancada e olhe lá!”.
(Acho mesmo que vou curtir em
casa, vendo pela TV, com meu companheiro, um copo de mate gelado e o cachorro
dormindo aos nossos pés).
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas
feiras
18 novembro 2024
SÃO FEITOS DE PAPEL
SÃO FEITOS DE PAPEL
Muitas vezes pensamos
que trabalhar com escultura passa pela madeira, pedra, ferro, e nem nos damos
conta que é possível uso de matérias primas mais simples e perecíveis. Tive uma
conhecida que esculpia em frutas, fazia mesas de festas de criança com
melancias como barco, uvas e bananas como marinheiros, e maçãs como ondas do
mar. Ela uma vez, me mostrou todo um sítio com casa, cercas, árvores e
canteiros feitos com massinha. De outra vez eram esculturas em chocolate as
belezas apresentadas.
Mas ver as imagens da
imigração alemã em Petrópolis contextualizada e apresentada em figuras de
papel... com as texturas de pele, cabelo, folhas em diferentes formas do papel...
foi um deslumbre. E saber que não são duráveis como outros materiais, há traças
e cupins aguardando estas iguarias ao longo do tempo!
Foi numa exposição chamada Coragem e Fé, na Casa da Princesa
Isabel, bem na esquina em frente da Catedral que tivemos a oportunidade de ver
este trabalho de toda uma família. Mãe e irmãos pesquisam e confeccionam as
esculturas, quadros em relevo e trazem a história do início da cidade para o
presente.
Foi um deslumbramento poder estar em contato com a imagem de
D Pedro I baixinho e jovem e D. Pedro II em tamanho natural com sua altura de 1,92m com sua barba clara e abundante numa
textura de papel que encaracola! Uma árvore feita com fatias de rolos de
papelão com um jacu e suas penas pousado
num galho, uma galinha com pintinhos arrepiados do outro lado da sala. E ver a
sombra dos textos de jornal na pele dos porquinhos... a trança da menina que os
alimenta. Ah! Engenhosidade e arte, trabalho firme de criação e manutenção pois
a deterioração acontece e a “vida” destas figuras quando muito ultrapassa 20
anos. Mas que visita, as guarda para
sempre.
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve
às segundas feiras
11 novembro 2024
DO BEM E DO BELO
Algumas vezes há tensão e urgência nas decisões, praticidade
nas ações, responsabilidade nas atitudes que nem alcançamos mais que o suportar
a crise aqui e agora. Depois... bom, depois ruminamos o que foi e ressignificamos
o feito. A semana passada foi um exemplo destas duas faces de nós mesmo,
primeiro o pedido de socorro da vizinha e o marido havia acabado de morrer, uma
ação invertida, visto que o que fizemos foi estar ali. A seguir um encontro
entre amigos num lugar de beleza ímpar, e a possibilidade de estar dentro desta
foto do por do sol, na tranquilidade das águas salgadas, na sincronicidade de
movimentos fluidos, num espaço e instante de afeto e beleza que afetou a todos
os do barco e da praia.
Um intenso sentimento de gratidão e irmandade que suscitou em
todos o desejo de retornar e viver mais vezes esta harmonia, que gerou na prática
a organização de novos encontros entre velhos companheiros de jornada. E
velhos, sim de muitos anos se encontrando sempre que possível... desde alguns
anos antes da formatura em 1976. Velhos companheiros sim, mas ainda com piadas
e implicâncias dos tempos de estudos, apelidos, comentários, brincadeiras rearranjadas
e adaptadas ao novo/velho modo de ser. Gozações sobre os joelhos doloridos,
sobre as panças aumentadas, sobre rugas e celulites próprias da vida depois dos
setenta, mas com um espírito folgazão e propostas divertidas de “bater bafo”
com bulas de remédio, de brindar com chás, de trocar indicações de médicos e contatos
de nutricionistas.
A saber que incluindo as perdas já acontecidas (algumas de
longa data e outras bem recentes) a beleza do elo entre estes companheiros rivaliza
com a beleza do por do sol.
Ô sorte ser parte desta beleza!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve
às segundas feiras
07 outubro 2024
IMPORTA A IDADE?
Que diferença faz a idade quando o prazer de brincar une as
almas? Que importa se um tem 11 anos e o outro ainda nem se firma sentado nos
seus poucos meses de vida! Brincar e usufruir da alegria de estarem juntos faz
quem vê se sentir feliz, acreditar que um mundo melhor é possível, que a vida tem
esperança!
Há que se agradecer estes momentos especiais que os encontros
nos proporcionam. Há que se agradecer o bem que nos faz a renovação desta
possibilidade de ser alegre e simples. Há que se agradecer!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve
às segundas feiras
30 setembro 2024
É GAVIÃO DE CIDADE!
É GAVIÃO DE CIDADE!
Estava passando por
uma rua do bairro com uma amiga, e no meio da conversa a amiga apontou para a
calçada oposta falando que galo diferente! Engraçado, como ele anda diferente!
Olhando bem descobriram que realmente não era um galo, mas quanto mais se
aproximavam mais ele se afastava correndo pelo meio da rua, cruzando para a
calçada do outro lado! Elas caminharam vagarosas e sorrateiras
tentando registrar a ave e verificar que animal era o ser fugitivo.
Braços dados, pareciam
duas cúmplices numa aventura perigosa, tamanha taquicardia apresentavam.
Cruza daqui, corre
silenciosamente de cá, vai depressa pra lá, dobra a esquina que ele fugiu voando
rasteiro e pimba! Uma foto do gavião pousado no muro.
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve
às segundas feiras
23 setembro 2024
PODE SER...
Naquela manhã chegou para fazer exercícios cheia de preguiça
e dor. Primeiro observou-se no chão, onde os contatos eram mais fortes, onde doía
mais. Rola pra cá rola pra lá, senta, engatinha,
levanta, e sem mais nem menos ela deita no canto da parede e os colegas brincam
: Ah minha nossa! Ela aDORmeceu! Foi uma risada só pois a dor realmente havia
sumido com o cansaço. Mas logo voltaram todos aos movimentos, deslocamentos e
outra colega foi para o outro lado do espaço e disse: É isto tá na hora de
aCORDAr! Tempos de exercícios e brincadeiras, de agilidade física e mental,
trocas afetivas e energéticas. E na saída não se registrou a equipe, as a solução
foi bem fotografada entre piadinhas e risos.
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve
às segundas feiras
09 setembro 2024
COMO SERÁ DAR A VOLTA POR CIMA?
COMO SERÁ DAR A VOLTA POR CIMA?
Nenhuma volta a ser considerada, a princípio um golpe e um
susto, depois de um tempo recuperação e reajuste? Quem nunca teve este revés
não tem como imaginar de verdade. Pode tocar na mão do outro, experimentar em
si a presença, mas espelhar mesmo.. nem
de longe. Cada um tem uma história, com os sentimentos próprios.
Vem uma foto de uma prótese de perna numa cadeira de
arquibancada num estádio de competição provoca emoções diversas. No meu caso,
um sentimento de respeito profundo pelo dono da prótese que caminhou na
superação do que possa ter ocorrido a ponto de participar de uma Paralimpíada,
e outro sentimento de admiração pela sensibilidade do artista que fez a foto de
tamanha sutileza. É homenagem sensível, reconhecimento da vida que segue, dos esforços
dos treinos, e do olho acurado nos detalhes do entorno, resumindo: beleza e
arte da vida, numa Olimpíada cheia de
momentos interessantes, torcidas e medalhas, conquistas maiores ou menores ( só
de estar no evento é uma conquista).
E para quem está de
casa, vibrar, se orgulhar esse inspirar neste clima olímpico é o que mantém a esperança
de confraternização, de cooperação dentro da competição, da possibilidade de fraternidade
nas conquistas, da possibilidade de recuperação de um contato com o outro, com
a natureza, com a capacidade humana de contornar e dimensionar dificuldades e chegar
à soluções.
Que sejamos estes atletas na recuperação da natureza, de
nossas águas, matas, flora e fauna, da nossa vida planetária, podendo deixar
nossas próteses e sair para dar uma voltinha, mas podendo voltar e recuperar
nossos instrumentos de seguir em frente.
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve
às segundas feiras
12 agosto 2024
REPOUSO COMPULSÓRIO
REPOUSO COMPULSÓRIO
De verdade as coisas não acontecem ao acaso. Conjurando um
acontecimento. cansaços, atividades mentais e físicas, acontecimentos no
entorno, emoções e legados. E um dia, no meio de tudo pipoca um acidentezinho. Bem,
foi mesmo assim. Alegrias, cansaços, medos pequenos e um pouco maiores,
posicionamento de enfrentamento, muita barra segurada, cuidados e busca de
cuidados para si, novos horizontes e perspectivas, crescimentos, visões do
inferno e do céu... enfim, vida como ela é.
Um belo dia: pum! Um
tombo da escada! Sem fratura, sem grandes dramas, mas... um entorse que deixou
um descanso compulsório de cara. Claro que seguido de fisioterapia, comedimentos,
cuidados e muita conversa sobre não usar
medicamentos para retirar a dor, , anti-inflamatórios e similares.
Medo reavaliado, mágoas
avaliadas, constrangimentos iluminados um bom passo para a recuperação. Acabou sendo
um aprendizado e tanto. E este
texto registra a cura física e emocional
de um tropeço. Nada ficou ao acaso.
De verdade as coisas não acontecem ao acaso. Conjurando um
acontecimento. cansaços, atividades mentais e físicas, acontecimentos no
entorno, emoções e legados. E um dia, no meio de tudo pipoca um acidentezinho. Bem,
foi mesmo assim. Alegrias, cansaços, medos pequenos e um pouco maiores,
posicionamento de enfrentamento, muita barra segurada, cuidados e busca de
cuidados para si, novos horizontes e perspectivas, crescimentos, visões do
inferno e do céu... enfim, vida como ela é.
Um belo dia: pum! Um
tombo da escada! Sem fratura, sem grandes dramas, mas... um entorse que deixou
um descanso compulsório de cara. Claro que seguido de fisioterapia, comedimentos,
cuidados e muita conversa sobre não usar
medicamentos para retirar a dor, , anti-inflamatórios e similares.
Medo reavaliado, mágoas
avaliadas, constrangimentos iluminados um bom passo para a recuperação. Acabou sendo
um aprendizado e tanto. E este
texto registra a cura física e emocional
de um tropeço. Nada ficou ao acaso.
06 maio 2024
FILTRO DE CÉU
FILTRO DE CÉU
Não é que estivesse de preguiça, bom, talvez um pouco, mas
era mais estar filtrando o céu com as folhas. Deitado na areia no fim do dia,
escutando as ondas do mar e o farfalhar das folhas do coqueiro com a leve brisa
vinda das bandas africanas a mover dois fiapos de nuvens, se percebia poeta.
Versos compactos com 3 ou 4 palavras, sonetos ritmados e
rimados, versos generosos e livres, coração penetrado pelos fios de céu que
chegavam coados pelas folhas. Tamanha paz que quase adormeceu enquanto se
sentia grato.
Mas o ócio criativo não dura para sempre e a penumbra da
noite se avizinhava, os bichinhos da areia se movendo para comer, e as ondas já
mais próximas dos pés diziam que era hora de alimentar a barriga além dos
sonhos. Respirou fundo 3 vezes para acordar o corpo, levantou primeiro os pés e
sacudiu a areia sobre a barriga, riu de si, sentou e procedeu os procedimentos
de retorno para a bicicleta rumo ao lar doce lar.
Se tinha que pensar
numa palavra era energizado, mas, na mesma hora, apareceram grato e feliz.
Realmente céu filtrado faz bem!!!
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às
segundas-feiras
29 abril 2024
DE SOMBRA E LUZ
DE SOMBRA E LUZ
Na verdade, verdadeira, as luzes sempre foram uma atração. Desde
criança tinha um quê de mariposa, atraída pela luz. Se era noite e tinha uma vela
que fosse.. seu olhar para ali corria. Lembrava das noites de fazenda sem luz elétrica
no tempo da avó Matilde. Vó Matilde teve 20 filhos entre os de barriga e os de
criar e visitar a vó na fazenda era por um lado uma aventura e por outro um mudar
de era. Vó Matilde nunca pensou em modernidade. Conservava seus quitutes em
salmoura, ou no pé do pote. Era assim defumava, salgava ou deixava na base da
talha de água de beber, que ficava num canto ais fresco da cozinha e parecia
até geladeira na sua base.
Aventuras no barro, no mato, nos riachos e no curral, aquele
bando de crianças corria atazanando os adultos nos seus afazeres ou no
descanso. De dia formavam grupos por interesse ou idade e ia nadar, dar banho
em minhoca na beira do riacho, montavam jericos, mulas ou um cavalo velho e
saiam pelos caminhos em busca do que fazer. De noite, sentavam na varanda e
sempre aparecia um contador de casos. Uma lamparina iluminava o centro da roda,
e sempre seus olhos ficavam bruxuleando com a luz. Não raro perdia o fio da
meada das histórias e viajava nos movimentos da luz. Quando as estrelas piscavam num céu noturno sem
luar, a viagem da imaginação dela era mais aventureira e ousava conversar com
os extraterrestres que moravam nas estrelas.
Com a morte da vó Matilde, a fazenda recebeu eletricidade,
ordenhadeiras mecânicas e as aventuras passaram a ser de motor, barquinho que
subia o riacho, que descia a correnteza até o lago, trator que puxava uma
carreta cheia de criança dentro, mas ele já quase não visitava a fazenda, era
grande agora. Seu encantamento com luz não mudou, vivia perdendo a hora na
contemplação do por do sol e agora apreciava as nuances das sombras também. Imaginava
diálogos nas vozes dos pássaros voando para os ninhos, ria das coisas que “ouvia”
na algazarra vespertina.
Vida adulta e o olhar mariposa atraído pela luz e pelas
sombras foi desembocar na profissão de iluminadora de vitrines, de shows, e
finalmente se casou com as sombras da magia do teatro. Mas nunca perdeu o
encantamento das cores da luz do sol
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às
segundas-feiras
08 abril 2024
QUEM QUER PÃO
QUEM QUER PÃO
A avó já falava desde sempre que fazer pão em casa era como
uma oração. Claro que era um exagero da vó, né? Mas com o passar dos anos,
agora já avô de 3 crianças, resolveu aprender a fazer cosas de comer em casa.
Viúvo, nem podia pedir à mulher pra dar este gostinho de comida caseira. Desde
que enviuvara comia na rua ou na casa de um ou outro filho ocasionalmente. Tinha
tempo de sobra para cozinhar. Fez experiência por conta própria e.. quase
desistiu. A alquimia dos temperos na medida certa não foi intuitiva, catou
livros de receitas e resolveu ter aulas via internet. Ria de si nas buscas de
como fazer pesquisadas no Youtube, mas foi dando certo aos poucos até que
resolveu fazer pães. Descobriu que era realmente como fazer orações, meditação,
rezas, o que fosse. Vovó tinha razão.
Deu de fazer pães tijolinho, rodinha, bolinho, salgados, com
frutas. Os netos passaram a pedir e comiam com gosto os pães do Vô Inácio.
Então passou a reunir filhos e netos para almoço e lanche de
fim de semana, e dar de “lambuja” umas amostras das delícias para os vizinhos.
Com o tempo começou a receber os vizinhos pra uma prosa e um lanchinho feito
por ele, desenvolveu petiscos que fizeram fama no bairro. E volta e meia vinha
alguém com mantimentos para fazerem juntos uma torta, um bolo, um pãozinho diferente,
já que ousou inventar. Chegou a ser convidado para fazer pães num evento
escolar e outro no clube de xadrez da vizinhança.
Quem diria que seguiria os caminhos da avó quituteira! Os irmãos
até voltaram a conviver com ele trazendo receitas antigas. De verdade, ficou
até mais ativo fisicamente. Afinal precisava gastar o tanto de coisa gostosa
que comia...
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às
segundas-feiras
22 março 2024
O DIREITO SAGRADO DO HOMEM DE BEM
Na cabeça de uma parte (bem grande de homens), talvez até de todo bolsonarista, como o Robinho, ex-jogador de futebol, bolsonarista e estuprador condenado na Itália há 9 anos de prisão por agressão sexual coletiva, o estupro é um direito do homem de bem e sempre culpa da vítima, sempre culpa da mulher, pelos seguintes motivos:
Primeiro, por ser mulher.
Segundo, por ser estuprável, o que quer dizer bonita, gostosa, como diria um ex-presidente inelegível e atual candidato a uma vaga permanente na Papuda.
Terceiro, por provocar. Todo homem (deste tipo) sabe que as mulheres provocam. Provocam quando estão de roupas curtas, porque é óbvio que saem de casa com a intenção de serem estupradas. Provocam quando estão de roupas longas, porque sabem que o candidato a estuprador vai ficar curioso sobre o que ela tem por baixo da roupa longa. Provocam quando saem tarde de casa, porque todo homem sabe que sai tarde de casa, e piora se beber, está pedindo para ser estuprada. Provocam quando saem cedo de casa, digamos, umas sete da manhã para ir trabalhar, afinal de contas elas sabem que não existe horário seguro para uma mulher sair de casa desacompanhada de um homem.
Quarto, porque é vontade de Deus que a mulher seja estuprada. Afinal de contas, se nem uma folha cai de uma árvore sem a vontade dele, como dizem os fiéis leitores da Bíblia, se Deus fosse contra o estupro, não a teria feito nascer mulher, não é verdade?
Ernande Valentim do Prado é anticorrupto, antejeitinho,
porém é ainda mais antifascista, antimachão e antimilico
e
publica no Rua Balsa das 10 sempre que sobra um tempo.
04 março 2024
MEMÓRIAS DESPERTADAS
MEMÓRIAS DESPERTADAS
Uma amiga perguntou se eu tinha alguma lembrança de fatos
ocorridos na travessia da Ponte Rio Niterói.
Foi um chegar de acontecimentos diferentes quase borbulhante. Da vez que se mudaram da Tijuca para Boa
Viagem, com o choro inconsolável das crianças, da vez que o vento balançava a
pista, e da vez que o pneu do carro furou.
Quando estava cruzando a ponte para um almoço no Rio, na casa
da mãe, o carro cheio com as cinco crianças entre 2 e 10 anos, uma cachorra e
sua ninhada novinha e cheia de saudades do marido que viajava, escutou o chiado
do pneu traseiro esvaziando. Logo depois do vão central parei o carro, coloquei
a cachorra nervosa no banco da frente, recomendei que as crianças não se
movessem do banco de trás e fui providenciar a troca do pneu. Retirado o
triângulo e colocado distante da traseira do carro, passei a retirar o estepe,
a chave de rodas e ao mesmo tempo vigiava as
crianças. A ideia era colocar o macaco, soltar o pneu, e
depois continuar para retirar o pneu furado... Mas a chave de roda não se
movia, nem com o meu peso. Enquanto eu me via em apuros, parou um enorme
caminhão atrás do carro, saltou o motorista com um grande cano de ferro na mão
e se aproximou. Em minutos conseguiu soltar e trocar o pneu ao som dos gritos
das crianças, os latidos bravos da cachorra. E eu tentando acalmar a tropa e
contornar a balbúrdia, não vi o motorista ir embora. Nem pude agradecer!
Até hoje a
gratidão fica no coração.
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às
segundas-feiras
26 fevereiro 2024
AS ERVAS DO SEU LINO
AS ERVAS DO SEU LINO
Era uma vez... não, ficava parecendo conto de fadas como os
começavam assim ou “No tempo em que os bichos falavam”... não, não, era outro o
caso. Numa floreta... também não dava para começar assim pois o que ia contar,
bom, não deixava de ser uma floresta, mas usualmente chamavam de mata: Mata
Atlântica.
Então, um grupo de pessoas fazia uma caminha por uma trilha
que cortava a mata. De certa forma era uma trilha que já havia sido uma pequena
estrada que deixou de ser usada. Muito, mas muito tempo atrás, até passaram
trens em parta daquela trilha. Mas como não era muito usada, a natureza foi
tomando posse de seus espaços e arbustos, mato e árvores de crescimento mais
rápido estavam beirando a trilha. O
grupo subia em alguns trechos e passava por pequenos córregos que ficavam como
rios quando chovia. Dava mesmo para ver pequenas quedas de água descendo pelas
pedras da montanha ao lado. Quando chovia era perigoso fazer a trilha pois os
pequenos córregos viravam riachos com correnteza rápida e ser surpreendido por
uma “cabeça d’água no meio da mata... não era boa coisa. Sem chuva, o grupo andava
com certa destreza pela trilha. Os mais prevenidos levavam cordas, mosquetões,
e até um conjunto de ferramentas. Nenhuma previsão de acampar ou ficar até
escurecer. Era ir e chegar do outro lado numa jornada só.
Claro que nada é previsível e cursa como programado
integralmente. Justo o guia, o mais experiente, torceu o pé numa pedra solta.
Parada obrigatória bem no meio do caminho. Tanto fazia continuar como voltar.
Tirada a bota, o pé ficou roxo e inchado na hora. O camarada estava
visivelmente com muita dor. Ele mesmo enfaixou o pé desde os dedos até depois
do tornozelo, como faria com qualquer outro. Buscou um pedaço de galho para
fazer de muleta e recomendou que as paradas de descanso fossem encurtadas para
aviar a caminhada. O grupo redistribuiu as cargas do guia e optaram por seguir
em frente. Vai que o morador de uma casinha mais adiante, que vivia longe da
dita civilização, tinha como ajudar.
Passada uma hora (o dobro do tempo que se levava fazendo o
caminho), a marcha estava lenta, o grupo preocupado, o guia exausto e nada de
casinha na beira da trilha. Pela previsão inicial, o total da trilha seria de 4
horas, e já tinha feito 3 horas de caminhada e não haviam chegado nem perto do
fim. A se calcular pelo andar deles, tinham mais de 3 horas pela frente. Caminhar em ritmo lento
cansava mais e duas das mulheres do grupo já estavam bem cansadas. Bom, ainda
não eram 11 horas, não havia previsão de chuva, resolveram fazer uma parada
para lanche e descanso de meia hora. Um dos mais novos do grupo, com seus 18
anos propôs ir mais adiante ver se achava a tal casinha. A conclusão foi que
iriam 2 e caminharia meia hora e esperariam o grupo se não achassem nada. Munidos
de apitos e com os celulares (nem todo canto ali tinha sinal) foram os dois
escolhidos. O guia dormiu um pouco (cansaço e dor), o resto bebeu água, comeu
fruta e uns sanduiches enquanto o fazia a pausa.
Retomada a trilha em menos de 15 minutos deram com os dois “exploradores”
voltando. Acharam sim, a casinha, mas o morador avisou que na última chuva
havia desbarrancado o trecho seguinte em 2 lugares e que seria preciso uma pequena
escalada para ultrapassar as pedras caídas. Sentaram-se para conversar e acabaram
decidindo que seria mais prudente voltarem sem escalar, e lembraram que o
morador ofereceu sua casa para deixarem o guia enquanto pediam resgate para
ele. Estavam sem sinal de telefone desde antes do acidente, aliás, não usaram
celular desde o início da trilha. O guia ficou receoso de deixar o grupo ir sem
poder fazer contato. Na hora do entorse não reparou (grande falha) que seu
comunicador por rádio frequência havia caído. Por fim aceitou ficar na casinha
e uma das mulheres resolveu ficar também> os outros voltaram atentos para
não se perderem e buscarem o tal comunicador.
Grupão de volta, guia e mulher cansada seguindo até a casinha
... meia hora de caminhada, o guia sem poder apoiar o pé e a mulher sem muito
ânimo de andar. Dupla perfeita na lentidão. Foram recebidos com um sorriso
desdentado e um aperto de mão de mãos calosas. Parecia que o “eremita” sentia
falta de companhia. O cachorro vira-latas pretinho e magrinho não chegou a
avançar, mas latiu um bocado. Depois que viu que os visitantes não se iriam tão
cedo, deitou no vão da porta e ficou observando a conversa. Seu Lino, o morador
isolado, passou um café e ofereceu umas mangas colhidas maduras. Buscou água
fresca na “bica” perto da pedra e deixou numa moringa à disposição dos
visitantes. Mas o intervalo de almoço dele tinha acabado e precisava alimentar
as galinhas e ver a cabra se tinha parido, ia rapidinho e voltaria logo pois o
terreiro da criação era logo ali. E voltou mesmo, com umas ervas na mão que
macerou e ofereceu para colocar no pé do moço avariado. Desenfaixa o pé que estava
mais roxo e ao ser desenfaixado parecia ter inchado ainda mais, faz um banho de
ervas numa bacia meio quebrada e com água morna no início e água bem fria
acrescentada (que a água da bica era geladinha) e deu uma melhorada boa. Aí, tasca
saião, arnica e babosa numa pasta direto no pé e torna a enfaixar. Parecia realmente que o seu Lino sabia das
coisas. A dor não passou, mas só aparecia se apoiasse o pé ou mexesse um pouco
mais. O guia até cogitou voltar caminhando, mas a mulher e seu Lino bateram pé
dizendo que não carecia. Melhor esperar socorro. Claro que já estava mais
preocupado, sabia que os “resgatistas” da cidade de origem estavam acostumados
a buscarem pessoas perdidas. Ele mesmo já ajudara em algumas ocasiões. Uma maca
com rodas grande e o caminho era feito no tempo justo. Mas já passava das 14h e
não devia ter achado o rádio comunicador, então seria dado início do retorno à
trilha só depois de chegarem à cidade. Deviam estar chegando se tudo estivesse
certo. Seu Lino entabulou uma proza fácil com casos do mato, da sua vida
solitária e dor resgates que viu. A preocupação do guia er evidente, mas a mulher
estava amando os “causos”. Se tudo desse certo o grupo de resgata alcançaria a
casinha do seu Lino depois das 16:30 e a trilha teria que ser terminada já no
escuro, o que não era a melhor opção. Bom, a outra opção era dormir sob o céu
da Mata Atlântica, na casa do seu Lino, que nem tinham visto por dentro.
Seu Lino foi preparam um “rango”, matou uma galinha e pegou
umas batatas doces, umas folhas de taioba, orapronobis, e um pouco de manjericão.
Depois de um tempo o cheiro era delicioso e a fome estava fazendo os estômagos
roncarem Jantaram antes das 17:30 que depois que escurecia era difícil fazer as
coisas. A iluminação era de vela feita em casa com limão, laranja, água e óleo.
Já estavam procurando um canto para se acomodarem quando escutaram barulho no
caminho. 3 homens apareceram com uma maca/cadeira de rodas no pátio.
Cumprimentaram seu Lino com alegria, agradecerem por terem cuidado da dupla e
rapidamente colocaram as coisas em ordem para o retorno. Sabiam que já estavam
no limite por conta do anoitecer. Sorte que eram tempo quente ainda e o sol
daria sua luz por pelo menos mais 1 hora. Partiram todos rapidamente, a mulher
mais descansada no meio da turma. Depois de percorrerem quase correndo a trilha
por uma hora, a mulher já estava com 2
palmos de língua para fora e pediu para descansar. Resolveram sentar ela na
maca cadeira junto com o guia sem nem mesmo perguntarem se queria e tornara a
acelerar a marcha para percorrerem o máximo de espaço antes da escuridão. Quando realmente ficou impossível ver à
frente, duas lanternas foram acesas e o guia segurava uma à gente e uma outra
ia com o último resgatista. Mais outra hora se passou até chegarem à cidade.
Todo grupo, de banho tomado estava à espera. Imediatamente o guia foi conduzido
ao serviço médico e a mulher foi para casa cansada e se prometendo que de mata,
floresta, trilha e caminhada estava completamente “satisfeita”, nunca mais!!!
Só para saberem, o guia foi encaminhado para uma cirurgia
para recompor ossos e ligamentos e passou quase 1 ano com fisioterapia para
retomar suas aventuras. Acidentes acontecem, né?
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às
segundas-feiras
19 fevereiro 2024
DE BALDE, CANECA OU CUIA
DE BALDE, CANECA OU CUIA
A tia
Zefinha vivia falando que era um enorme esforço e debalde. Era uma referência
até interessante pois tocava na vida familiar de uma forma bem “quente”. Ela se
referia ao trabalho da irmã no intuito de tirar o vício de jogo do marido e do
filho. Cada vez que tudo da casa era vendido (para depois ser comprado com o
esforço das mulheres da família: mulher e filhas) as críticas chiavam como
rastilho de pólvora e terminavam numa explosiva briga entre tios, avós, e sua
mãe. As irmãs nem se metiam para não saírem chamuscadas. Ela própria pouco fazia
pois nem tinha completado 13 anos e era 9 anos mais moça que seu irmão
desajuizado. Procurava manter o que podia arrumado, roupa escondida para ir á
escola e ajudava às outras a manterem a ordem.
Entretanto
achava engraçado falarem que era um esforço debalde. No caso ela considerava
mais amplo, era debalde, de panela, caneca e cuia. Nada adiantava, nada
adiantaria se nunca acabasse a loucura deles pelas apostas.
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às
segundas-feiras
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