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21 fevereiro 2020

DIGA-ME COM QUEM ANDAS E TE DIREI QUEM ÉS: VIDA BANDIDA


Vida bandida. Imagem capturada na internet, 2020.
Ernande Valentin do Prado
Cheguei à conclusão que o Capitão de artilharia, cuja especialidade é matar e que preside o Brasil no momento, está sendo perseguido pela imprensa, afinal de contas ele nunca deu motivos em sua vida pública, para que desconfiem que ele ou seus filhos sejam capazes de queimar um arquivo, mesmo sendo um arquivo pesado, incômodo e potencialmente danoso à sua imagem, como era o suposto matador de aluguel, Capitão Adriano, com quem mantinha uma relação muito próxima.  
Desde sempre se sabe que a imprensa burguesa é corrupta, mentirosa e tem um lado muito definido e não é o lado da verdade, é o lado das esquerdas e isso fica claro nos textos que publicam, claramente orientados pelo marxismo cultural entranhado no mercado financeiro como um todo e na mídia.
E essa semana seus articulistas esquerdopatas e mercenários resolveram cair em cima da família do presidente, que como todo sabem são pessoas boas, honesta e de bom coração. Mas o tiro saiu pela culatra, definitivamente a imprensa caiu no ridículo ao insinuar que o suposto Matador de aluguel e chefe do escritório do Crime, Capitão Adriano, pode ter sido um arquivo tostado pela Polícia Baiana a mando de milicianos ou de políticos importantes acima de qualquer suspeita, principalmente políticos acima de qualquer inocência. 
Pior ainda, alguns jornalistas e jornais desonestos chegaram a insinuar que os filhos e até o presidente teriam interesse na torra deste suposto arquivo que, segundo alguns, poderia expor os mandantes do assassinato de Marielle Franco, entre outros crimes igualmente horrendos. O que é absurdo por diversos motivos, que passarei a denunciar agora:
1.      O capitão alguma vez expressou ser uma pessoa capaz de matar?
2.        O capitão alguma demonstrou ser uma pessoa violenta ou defender bandidos hediondos capazes de cometer atos considerados crimes contra a humanidade, pelos tribunais internacionais, como tortura e torturadores?
3.       O Capitão, quando era deputado, alguma vez defendeu grupos de extermínio e os convidou a se mudar para o Rio de Janeiro, dando a entender que era a favor de justiça com as próprias mãos?
4.       O Capitão ou algum filho seu, alguma vez defendeu e deu medalha de honra para membros de milícias, que como todos devem saber, mata, rouba, sequestra, extorque moradores de comunidades pobres, como o tal do Capitão Adriano, considerado o chefe do escritório do crime, ou seja, o miliciano dos milicianos?
5.       Por acaso algum filho do Capitão, quando era deputado no Rio de Janeiro empregou parentes deste ou de outros milicianos em seu gabinete?
6.       Algum vereador do PSL, ex-partido do Presidente, ajudou o Capitão Adriano a se esconder na Bahia? 
7.       Por acaso o presidente morava e tem casa no mesmo condomínio que outro miliciano famoso, hoje preso e que chegou a estocar, provavelmente para vender, 117 fuzis? 
8.       Alguma vez os filhos do presidente difamaram Marielle e a descreveram como inimiga? 
9.       O pai e chefe do clã, que é o exemplo maior para os filhos, alguma vez desejou a morte de uma adversária e demonstrou ser mesquinho e não ter solidariedade nem no câncer?
Então, imprensa corrupta, não venham com chorumes, com mimimi, afinal de contas o capitão e sua família nunca deram motivos para ninguém desconfiar que deles. Até porque uma coisa é ser considerado, pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, suspeito de enriquecimento ilícito,  formação de quadrilha e de lavar dinheiro com venda de imóveis e negociatas em loja de chocolate, outra coisa é estar envolvido com crimes de pistolagem, com a defesa de assassinos, sequestradores e torturadores, não é verdade?
Tentar ligar a família do presidente com o envolvimento no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, crime político no qual esse sujeito estaria envolvido até o pescoço, não faz nenhum sentido, como mostra os nove fatos questionados neste texto.
Fazer essas insinuações, levantar esse tipo de suspeita, só pode ser maldade no coração, afinal de constas não existe evidência nenhuma, nenhumazinha de que a família do presidente se beneficiaria com a queima do arquivo ou tem e eu não consigo ver?
Então imprensa burguesa, vão correr atrás de outros suspeitos, porque a família do presidente não deu motivos para essa perseguição mesquinha. E vou dar uma dica, conhecem o Tal de Padre Silvio Lancelot?
Ele parece muito suspeito, apesar de aparentemente não ter nada a ver com essa história. O elemento é pastoral do morador de Rua e quem gosta de morador de rua só pode ser comunista e comunista e bandido são a mesma coisa. Vi uma palestra dos terraplanistas do Planalto, semana passada e eles fazem a gente pensar sobre coisas que parecem não ter nada ver uma com as outras, mas que estão ligadas, como neste caso. O padre é o culpado, certeza e a imprensa só não vê por faltar fé.
No entanto, fé é tudo que o povo tem.

[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]


Esse texto foi adaptado do podcast Música para pensar.
Ouça o episódio aqui:


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03 maio 2019

80 TIROS, POR ENGANO

Imagem captura pelo Google, 2019.



Ernande Valentin do Prado

Oitenta tiros
por engano

Não foi só por preconceito
nem só por crueldade
foi também
pura e simplesmente
por incompetência

Eu sei
já estive com um fuzil nas mãos

Contra minha vontade
mesmo assim
estive

Hum ano
Zero meses
e vinte sete dias

Assim
está escrito
em minha reservista

Sofri
diariamente
torturas
Físicas e psicológicas

Não funcionou
por pura e simplesmente
incompetência

Coitados
se não usassem armas
para impor suas ideias
teria até dó

Nunca me dobraram
Não porque eu fosse melhor
Não sou

Nunca fui
“o Soldado”
nem nunca quis ser

Tentaram humilhação
Tentaram perseguição
Tentaram dor

Não funcionou
O que funcionaria
não fizeram

porque
nunca se preocuparam em conhecer
o inimigo

por incompetência
pura e simples
como disparar 80 tiros
por engano

Se precisavam mesmo
me dobrar

Bastaria me obrigar a tomar sopa
otários.



[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

26 maio 2017

SANGUESSUGAS DE TERNO COMPRADO EM MIAMI

Queda da bastilha. Imagem da internet. 2017.

Ernande Valentin do Prado
Vi na tv, num desses programas em que o entrevistado fala o que quer e o entrevistador não apresenta contraditório, um desembargador corajoso (e cara de pau em excesso, mas tão em excesso que parecia zombar de quem o ouvia) dizer que os juízes no Brasil só parecem que ganham bem, que na verdade seus salários (acima do teto para quase 100% deles) estão defasados. Para justificar que ganham poucos ele deu a entender que juízes precisam comprar ternos em Miami, pagar plano de saúde, escolas, carros, entre outras coisas.
Só eles têm esses gastos?
Na atual conjuntura, no momento em que tentam convencer o povo que o país não tem dinheiro para bancar a aposentadoria do cidadão comum (o que é mentira), que já se voltou a falar em cobrar mensalidades em escolas públicas, em serviços de saúde, cortar direitos básico do viver, esses senhores e seus colegas deveria ter vergonha na cara (mas não têm). Essa gente parece incapazes de ver a situação absurda em que chegamos e não perceber que estamos por pouco de uma ruptura total da ideia de País (que começo a não achar tão ruim).
 Os salários e penduricalhos que recebem (se concedem e julgam justos), são mais do alto, são altíssimos, estratosféricos (se comparado ao que se paga em outros lugares e ao que ganha um cidadão comum e até monarcas de outras nações). Além disso há que considerar que os benefícios que supostamente deveriam gerar são ridículos, ineficientes, injustos e porcos (sem querer ofender os suínos). O judiciário, com raras exceções, escondeu a corrupção durante toda sua existência (e provavelmente se beneficiou dela). Agora ela parece desenfreada, mas alguém lembra que eles deveriam coibir isso, que ganham altíssimos salários para isso? Alguém ainda tem dúvidas de que essa corrupção que parece incontrolável é responsabilidade (em sua maior parte) pela ação (e falta de ação) deste judiciário, que para ser caro ainda tinha que diminuir em mais de 50% seus gastos e para chegar a ser ineficiente deveria aumentar em mais de 100% sua resolutividade)?   
Li estes dias que a própria ideia de democracia está sendo posta em questionamento no Brasil, talvez porque agora estejamos vendo parte da extensão da corrupção que antes nos era negado ver. Infelizmente a corrupção não parecer ser o maior problema do Brasil, mas o fato de alguns, como os membros do judiciário, acharem-se melhores e com mais direitos dos que outros. Os benefícios que essa gente se dá são tão absurdos quanto os que a monarquia se davam, em tempos em que os reis, os imperadores se julgavam deuses. Não são e não são merecedores de respeito. Por isso e por outros há um desencanto com a democracia, que a gente vê no rosto das pessoas e nas ideias defendidas por gente desesperada na rua, como a volta da abominável ditadura militar.
O que se faz dentro das leis absurdas, criadas pelas instituições (indecentes) deste país, são tão inacreditáveis que parte do mundo ri e outra parte lamenta. Como está provado pelas delações, mas já estava nítido antes, quem manda no estado são os empresários (e ainda tem quem acredite que a saída seja pela privatização ou pela eleição de empresários para cargos executivos). Leis são feitas para beneficiar esta ou aquela empresa, esse ou aquele grupo. O povo é um detalhe, uma desculpa. No Brasil de hoje a própria ideia de nação é absurda, não temos nação, não temos instituições, temos uma espécie de tribo com saqueadores institucionalizados e essa ideia fica nítida quando se pensa nos enormes privilégios que as elites se dão (e nem estou falando das elites econômicas, mas das elites públicas: juízes, senadores, governadores, deputados, prefeitos (entre outros sanguessugas).
Mesmo que zerasse toda corrupção, o que é impossível com essa elite empresarial e pública, ainda não teríamos uma nação, porque não temos instituições, mas gangues, quadrilhas de saqueadores, parasitas, sanguessugas com poder de se conceder benefícios tão absurdos quanto humilhantes.
Pessoal do judiciário, senadores, deputados, vereadores, membros do executivo se concedem, todo dia, benefícios que os descolam do resto dos seres humanos. E neste cenário: como viabilizar a democracia, como viabilizar a ideia de nação?
Os salários, os penduricalhos, os tetos e sobretetos, são mais do que imorais, são uma afronta a todo brasileiro vivo e até os mortos. Será que estão esperando uma revolta popular, uma queda da bastilha, linchamento de engravatados (com ternos comprados em Miami) para fazer alguma coisa realmente significativa?
Tem reforma que dê jeito nisso?
Temos que refundar o Brasil ou desistir dele de vez, começar uma greve geral pelo resto da vida, que inclua os militares e deixar essa gente morrer de fome, porque eles são incapazes de produzir a própria comida, só comem porque nós lhes alimentamos.
Um princípio básico para existência de uma nação democrática de verdade ou que se queira de verdade deveria ser:
Nenhum membro do executivo, legislativa ou judiciário, enfim, nenhum membro do estado, incluindo o servidor público, deveria ter acesso a mais direitos, mais benefícios, mais penduricalho do que o cidadão comum. Assim todos os juízes, promotores, professores, secretários disso ou daquilo, prefeito, governador e até a pessoa que serve cafezinho ou limpa os banheiros, deveriam usar escolas públicas, serviço de saúde pública, segurança pública, transporte público. Só assim não descolariam de como vive a população e realmente trabalhariam para que houvesse dignidade aos cidadãos.
Não há argumento, desculpa ou falácia que justifique um Juiz ter salários e benéficos tão alto, nem eles e nem qualquer outra pessoa. A ideia de que um juiz ou senador mereçam mais do que a quem eles servem é uma afronta.
Temos que fazer uma reforma no Brasil como um todo, refundar o País, mas não pode ser feita por representantes. Não tem assembleia constituinte que dê jeito. As reformas precisam nascer das ruas, das mesas de bares, das escolas, das praças, dos instrumentos da internet e o maior número de pessoas deveriam participar. De outra forma não vai adiantar, vai ser apenas mais uma enganação.
Todos esses sanguessugas que dizem nos representar deveriam ser depostos já, seus salários, anéis, carros, casas, ternos comprados em Miami, deveriam ser confiscados, apenas aí começaríamos a vislumbrar o nascimento de uma nação.


[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

03 fevereiro 2017

SOBRE PATRÕES, MAIS VALIA E UMA CONVERSA NO FACEBOOK

Imagem captada via Google.
Ernande Valentin do Prado

“Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
...
Ele roubava o que eu mais valia
e eu não gosto de ladrão”.
Zeca Baleiro

Verdade, meu amigo, existem patrões (que parecem) bons, como você diz. Dignos, que pensam fazer tudo que podem para ajudar o seu empregado. No entanto a função “patrão” não é digna. É uma falácia dizer que o empregado precisa do patrão mais do que este do empregado, como os empresários gostam de encher a boca.
Imagina, por mais absurdo e irreal que lhe pareça: se hoje todos os trabalhadores do mundo, com ou sem carteira de trabalho, com remuneração que dá para sobreviver ou não, resolvessem cruzar os braços (inclusive as forças militares que poderiam acorrentar e obrigar os empregados a continuar produzindo para os proprietários dos meios de produção), o que aconteceria?
Uma greve impensável, com adesão de todos e todas que não são proprietários dos meios, nem das terras produtivas, causaria o que na economia mundial?
 Uma greve, não por um dia, não por uma semana, não por um mês, não por um ano mas por toda vida. O que os patrões poderiam fazer? Como iriam se alimentar? Como iriam por seus filhos em escolas caras, sem ter as professoras mal remuneradas para lhes ensinar? Como iriam cozinhar, lavar ou abastecer seus carros, defender seus patrimônios contra os que nada têm? Sem ninguém para fabricar, abastecer, trocar os pneus furados de seus carrões, como iriam se deslocar de um canto para o outro?  Como iriam comer sem ninguém para cozinhar, para lhe mostrar onde fica a cozinha, como ligar o gás? Quem iria limpar a bunda de seus filhos, quem iria passear com seus cachorros?
Se acontecesse essa greve e o dinheiro sujo do patrão perdesse o valor, quem iria definhar até morrer de fome e quem sobreviveria, mesmo que fosse comendo o que planta?
A relação patrão/empregado, segundo Maturana não pode ser considerada uma relação social, assim como a relação entre militares. Reconhecer a existência de “bons patrões” seria mais ou menos como dizer que existe ladrão bom, traficante que é bom por distribuir parte do que ganha com a comunidade, que assassinos são bons por matar quem a gente não gosta. Um assassino que mate deputados, que mate corruptos, que mate estupradores e pedófilos continuaria sendo assassino, por mais que uns e outros ou até ampla parcela da sociedade o considere um benfeitor. Concorda?
O patrão precisa extrair a mais valia do empregado e faz isso com prazer sádico, de uma forma que hoje, oito pessoas no mundo têm o mesmo patrimônio que os outros 50% da humanidade, segundo a ONG britânica Oxfam. 99% dos seres que Deus colocou na terra vivem para sustentar os outros 1% com luxos que nem consigo imaginar. Esses números que anunciam o fim do mundo não são produzidos pela esquerda, são de instituições capitalistas, o que quer dizer que a situação pode ser ainda mais detestável.
O mundo caminha para o apocalipse zumbi (se é que já não começou). E quem dirige um carrinho modesto de R$ 110, 180 mil reais, destes que inundam as ruas de João Pessoa (as mesmas que estão ficando encharcadas de pedintes, enquanto os bem nascidos comemoram que já podem encontrar empregadas domésticas para dormir no trabalho por menos de salários mínimo) não se dão conta, não podem admitir que são escravos. A classe média, tão necessária para acumulação de capital nas mãos da alta burguesia, vive situação de subalternidade tanto quantos os que estão abaixo dela, embora com conforto material e espiritual muito superiores. Não podem admitir que são serviçais, tanto quanto qualquer um de nós. A classe média não pode reconhecer que faz o papel do pelego que amacia as costas do trabalhador para que o patrão possa descansar suas bundas brancas – e vamos ser sinceros, a bunda dos patrões são quase sempre bancas.
A diferença substancial entre um trabalhador que ganha 500 reais mensais e um que ganha 15, 25 mil, por mais que determine vidas completamente diferentes, com possibilidades muito distintas, não é tão radicalmente distinta quando se pensa na vida que leva a alta burguesia. Se a classe média admitisse a própria servidão poderia haver suicídio em massa, o que é absurdo demais. Melhor viver na ilusão de que desfrutam da estima e dos privilégios dos que habitam o lugar onde querem e acreditam que vão chegar.  
Se ainda vivemos na época clássica da servidão no Brasil, a comparação seria mais ou menos assim, por mais imprecisa e ridícula que seja (e reconheço que é): o escravo que cortava cana vivia na senzala e o escravo que fazia trabalhos domésticos dormia no quartinho anexo da casa, para melhor servir os desejos do dono, na hora que esses desejassem. Comiam melhor, vestiam-se melhor, tinham um trabalho menos pesado, é verdade. Por outro lado tinha muito menos consciente de sua condição, menos coragem de se rebelar e fugir para os quilombos.  
O patrão, por mais humano que possa ser, extrai a mais valia do empregado. Essa é a principal função da “instituição patrão”. Enquanto pessoas, meu amigo, concordo contigo, o patrão pode ser bom (dentro do conceito de bom dos privilegiados). Penso a mesma coisa de militares, de deputados, de vereadores e até de ladrões e assassinos. Tem quem presta, tem os dignos, honestos (mesmo que não pareça, mesmo que não concorde com seus modos). O problema é que a instituição, a função social deles está errada, não deveria existir. A sociedade deveria se organizar de outra forma, não deveria existir deputados, vereadores, militares, assassinos, ladrões e não deveria existir patrão.  
Estou falando de ideias. Também não sei dizer como iriamos nos organizar sem essas instituições, o que sei é que existem formas mais justas de se viver neste mundo e é papel nosso descobri-las e, se for o caso, inventá-las. Enquanto não fazemos isso ao menos podemos nos indignar, já é algo mais do que a indiferença sádica e sínica em que vive a maioria.


[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

25 março 2014

Lá...


Lá onde a luz brilha,
Lá onde o amor vai
nós achamos a trilha
de uma estrela que cai.
— A Turma do Balão Mágico

    Um dia nos planejamos para o batizado, o aniversário, a primeira comunhão, a formatura, o noivado, o casamento, o chá de panela, a despedida de solteiro, o primeiro dia de aula, o último dia do ano, o velório, a missa... Planos de tempos esperados, desejados, festejados ou sofridos, temidos... Histórias que nossos pais e os pais de nossos pais escreveram e registraram em fotos que enfeitam as paredes, os álbuns, os baús de memórias de família.

    De todos os planos, todos os encontros, a nossa necessidade ancestral do rito. Algo que marque nossa passagem, tal qual um portal que nos atravessa para um outro mundo: o mundo dos adultos, dos formados, dos casados e dos órfãos... Em uma série de atos que, geralmente têm uma ordem estabelecida, uma sequência lógica, nós nos despedimos de um momento e inauguramos outro.

    Mas de toda essa vida de esperas e planos, há o real da vida vivida sem estreias com data marcada. Sim, em um dia não riscado com um círculo vermelho em volta, damos um passo a mais, um sorriso a menos, uma palavra nova ou antiga dita de outro jeito, um desejo que não contemos e pronto, nos tornamos alguém que não éramos antes. Nem sempre percebemos. Não há ritual claro, não há aviso, não há vestido novo, nem valsa especial, não há hino ou hastear de bandeira, nem cortar de fitas ou troca de alianças... Simplesmente vamos, somos, nos tornamos e seguimos vida afora, sonhando com um dia novo.

    É verdade que todos os dias, em todos os encontros e desencontros, em todas as palavras e silêncios, há a chance de inaugurarmos e estrearmos, mas falo de coisas mais profundas, dessas que deixam marcas, dessas que deixam cores, cheiros, que deixam raízes onde nos sustentamos e nos alimentamos. Coisas que nos refazem, que ressignificam nossa história e que, de alguma forma até, acredito, mudam a rotação do mundo, a translação, a lua, as estações do ano e as marés. Coisas encantadas.

    Tenho prestado atenção nessas estreias sem aviso. Nessas passagens sem festa. E ainda, afirmo que, mesmo sem perceber, de forma tênue, mas muito especial e concreta, esses momentos têm sim, uma espécie de ritual mágico, escondido, tímido, quase uma névoa, uma neblina no dia claro. Tipo aquelas gotinhas de nada que se escondem no nevoeiro da primeira hora da manhã. Pois está lá, bem lá... E mais! Pode ser mais importante, mais revolucionária, mais significativa que qualquer corte de fita, qualquer assinatura de certidão, qualquer marcha nupcial ou soco no ar ao segurar o diploma. Porque o momento não é percebido no durante como todos esses outros. Ele é percebido depois. E nessa percepção é que nos dizemos em silêncio: “foi lá...”

    Que nem a musiquinha do Balão Mágico que fez parte da minha infância: “lá onde a luz brilha”. Sim, lá onde uma luz brilhou e, nem sempre percebemos. Lá achamos a trilha pra estrela que caiu, o sol que nasceu, para a chuva repentina, para o dia que mudou, para nós mesmos que nos tornamos outros, renascemos, descobrimos...

    15 anos faço de formada em julho. Desde o primeiro semestre a turma se preparava para a formatura. Festas, bingos, planos, reuniões, estratégias de conseguir dinheiro. Depois, empresas, fotos, convites, clube, baile, cerimonial, discursos, oradores, homenageados, músicas, entrada triunfal, togas, diplomas. Tudo sonhado em 6 anos e durou menos que 6 horas. Mas vale e valeu muito: lágrimas, orgulho, gratidão, alegria, sensação de alívio, liberdade e dever cumprido. Mas tenho certeza de que o momento em que a luz brilhou, o momento da minha festa de formatura foi antes, bem antes...

    Era o ano de 1998 e fui para Anguera, sertão baiano, pelo Programa Universidade Solidária. Algo semelhante ao antigo Projeto Rondon: estudantes de diversas áreas atuando em regiões vulneráveis, trocando, aprendendo e ensinando. Meu grupo passou um mês vivendo na pequena cidade. Dias intensos de descobertas, momentos de muita angústia e muita esperança, muita indignação e muita luta. Os dias e noites, todas, passaram tão rápido e tão densos que chegamos ao fim com a surpresa e o cansaço dos que correm, correm, correm e nem sabem para onde. E nem sabíamos mesmo que caminhávamos para uma maturidade e uma experiência que valia por semestres e semestres de salas de aula, laboratórios e provas finais...

    Em Anguera, fizemos um grupo de gestantes e nos mobilizamos, junto com a comunidade, para garantir a assistência pré-natal. Foi uma briga boa. Fiz muitos atendimentos, muitas visitas, muitos grupos de educação em saúde nos lugares mais diversos e até, debaixo de uma mangueira. Um dia, chegamos em uma escola para fazer um grupo e, juntos, nosso grupo e moradores, varremos a sala e limpamos as cadeiras. Descobri uma outra medicina e, naquelas tardes quentes do sertão, naquelas noites enluaradas de festas nas ruas, com as crianças e adolescentes, entendi que seguiria pelo caminho da medicina preventiva e social.

    Na última noite em que passamos em Anguera, a comunidade liderada pelas meninas da Pastoral da Criança organizaram uma serenata de despedida. Na madrugada fomos todos acordados por canções de adeus e agradecimento. Todos fomos chamados pelos nomes e recebemos rosas. O sol foi nascendo e a manhã do dia seguinte, o dia da nossa partida, foi chegando devagarinho, enquanto o forró tocava na calçada, na rua e a gente dançava, todos, tudo junto e misturado... Era fim e era começo...

    Foi lá...

    Lá onde a luz brilha, brilhou... Onde comecei a me tornar a médica que sou hoje. Onde achei a trilha de muitas estrelas que passaram e passam na minha vida. A minha foto junto com as meninas da pastoral, as meninas que me acompanharam em grupos e lutas, festas e orações é a foto da minha formatura. A serenata feita por elas foi a minha música de entrada. A rosa que me deram, foi meu diploma. Mais de um ano antes de me formar oficialmente, dancei a minha valsa de formatura: forró, com o sol nascendo e a alma e o coração recém aprendendo a juntar estrelas. Saindo da meninice da universidade e virando médica, de pés descalços na rua amanhecida e encantada de Anguera.



[Maria Amélia Mano publica na Rua Balsa das 10 às 3as-feiras]

14 março 2014

LONGE DEMAIS DO MAR

Ernande Valentin do Prado

Tenho pra mim que nunca quis muito da vida. Isso é bem verdade em termos financeiros: desde os 12 anos que tenho vontade ter minha casa própria – via o quanto era sofrido para meus pais pagar aluguel – mas fora isso, não tenho grandes sonhos materiais (confesso, gosto de boas meias, mas calça não me importo de comprar na feira). Nunca quis carro, moto, roupas de marca, como meus colegas. Meus sonhos não envolvia o ter, era mudar o mundo, salvar a América, coisas simples assim.
Também não sou de reclamar do que tenho ou de onde estou – reclamo e muito (até) de outras coisas, não das minhas escolhas, principalmente aquelas que me levaram para longe de minha família de sangue, de amigos importantes em minha vida, alguns que os atuais nem sabem que existem, como o Ari Roque, de meus tempos de adolescente no Pirapó, distrito de Apucarana, no Paraná, um cara que amo muito e sinto falta todo dia. Do Antônio (Toninho), meu amigo quase irmão em Fazenda Rio Grande. Foi meu professor de Filosofia no segundo grau, depois companheiro de militância (quando achavamos que iriamos mudar o mundo pela política partidária). O Adilson (que ora por mim em sua igreja para compensar minha pouca fé), o Altair, do curso de Enfermagem. Sinto muita falta de todos eles (que aqui citados simbolizam várias outras pessoas dos mesmos períodos e lugares). Como o Junior, o Ademar, o Ronaldo (três padrinhos de Alice), a Priscilla (madrinha de Alice), a Estela (com quem divido sonhos e dores), o Rodrigo dos tempos de Mato Grosso do Sul e Escola de Saúde pública (que abriu a casa de sua família para ser um pouco minha). A Cíntia no Espírito Santo. Todos foram de alguma forma minha família nestes lugares e carrego comigo no coração.
Por onde passo conheço pessoas maravilhosas que (longe de deixar) carrego comigo e vão se somando a imensa riqueza que é minha vida.
Minhas escolhas levaram-me a deixar o Paraná assim que conclui a graduação em Enfermagem (um sonho louco de mudar o mundo pelo cuidado). Deixei um concurso na Universidade Federal do Paraná, depois na Prefeitura Municipal de Curitiba, Campo Largo e o último na Secretaria de Saúde do Estado do Paraná. Depois nunca mais passei em concurso e acho que estão cada vez mais difíceis e sem sentido. Vou por aí trabalhando ora como bolsista, ora como CLT ora nestas prefeituras que não respeitam nada e nem ninguém. Inseguro, sem futuro e faz com que eu seja de fato um trabalhador cigano (meio circense como gosta da imagem Larissa), mas foi a escolha que fiz para não me tornar como algumas pessoas que via e vejo por aí, sem fé, sem vontade de ser mais, sem esperança.
 

Outro sonho, antigo demais, era chegar perto do mar, fugir dos grandes centros urbanos, viver junto de pessoas que gostasse de fato. Por conta disso estou arrastando minha família (sempre muito paciente) Brasil adentro. No caminho fica minha mãe, sempre ressentida de eu não estar lá perto dela. Meu pai, mais compreensivo, mas não menos ressentido. Minhas irmãs que são maravilhosas, meus sobrinhos lindos, meus primos, cunhados (todos gente boa da melhor qualidade). Sinto uma falta deles que nem sei descrever, mas quanto mais longe vou, quanto mais gente que precisa de mim de algum modo eu posso ajudar, mais meu amor por eles se ressignifica.
Ontem deixei mais um lugar. Mas antes de dizer como sai, preciso dizer como cheguei.
Quando sai do Mato Grosso do Sul fui para Paripiranga, onde fiquei 4 anos lecionando em uma Faculdade de Enfermagem. (lá também deixei pessoas lindas das quais tenho muita saudade). Quando sai do centro oeste havia prometido nunca mais trabalhar em uma Prefeitura, pois não suportava a ideia de não ter meus direitos respeitados e, perdendo o emprego, fato que sempre acontece, fazendo ou não um bom trabalho, a gente sai com uma mão na frente e outra atrás e, o pior, tudo que plantou é arrasado em nome de uma burrice política inconsequente e estúpida (no mínimo) de apagar a história. Vejo essa desonestidade até em movimentos que se dizem democráticos e progressistas de emancipação do homem (pode uma coisa dessas? – mas isso é outra história)
Em janeiro de 2013 sai da faculdade onde fiquei por 4 anos. Como já trabalhava como Bolsista na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), curso de Especialização em Saúde da Família (onde reencontrei Seiko, dos tempos de Faculdade e incorporada a família que vai crescendo), fiquei na cidade recebendo o seguro desemprego e me preparando para novos desafios. Neste meio tempo preparei-me para ir (ou vir) para Paraíba. Cheguei a visitar a cidade, procurar casa para alugar e marcar a data da mudança, mas eis que entra em minha vida uma pessoa chamada Yanna (coordenadora de Atenção Básica). Ela ligou de Dias D’Ávila querendo conversar. Disse que recebeu indicação de um colega (Silvio Medina), que não conhecia ainda, mas que havia recebido uma indicação de Letícia Falleiros, Gaúcha radicada na Bahia, e uma das autoras no livro Vivências de educação popular na atenção primária à saúde com o texto: Experimentando a extensão popular, página  115.
Lembrei-me que havia prometido não mais trabalhar em prefeitura (ao menos sem concurso), mas quando se está desempregado tudo é aceitável e fui falar com ela, mas na certeza de recusar.
Fui recebido tão bem, com tanto respeito e consideração pela minha história, pequena, mas considerável. Yanna e Rafael, Coordenadora de Atenção Básica e Gerente de Atenção à Saúde, falava em nome do Secretário de Saúde, Fabiano Ribeiro. Contaram-me que era um “time”, uma equipe que já trabalhavam junto e dividiam sonhos há algum tempo. Convidaram-me e convenceram-me a aceitar uma vaga como Apoiador Institucional nesta equipe de “militantes” e fiquei na cidade por sete meses. Aprendi muito, gostei muito, conheci muita gente (comprometida com a população, militante de verdade em prol de um SUS que ainda existe em poucos lugares e, sobretudo, conhecedores de gestão e APS). Ganhei família nova e mais uma vez parti. (Esse trecho dá um capítulo à parte, para não ser injusto com Lucimar, Dona Lú, Cíntia, Graça, Rafael, Fabiano, Rafaele, entre outros).
Ontem cheguei à Paraíba. Estou em Lucena (de frente para o mar) região Metropolitana. Para chegar até João Pessoa, como quase todo mundo faz aqui, leva duas horas, fora o sofrimento, mas também tem poesia, basta saber olhar, ouvir, sentir. Estou bem, estou satisfeito (volto ao tema depois, para não ser injusto).
Apesar da saudade, reclamar pra que?


[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 todas às 6tas]

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